Colunista João Joanaz de Melo (Energia - Tendências): A COP de Paris, a ciência e a política

21.12.2015

Terminou no passado dia 12 de Dezembro em Paris a COP21 da Convenção-Quadro sobre as Alterações Climáticas.

 

Do lado positivo devemos assinalar um acordo difícil entre 195 países, que assumem o compromisso de contribuir para a redução das emissões de gases de efeito de estufa (GEE), e de limitar o aumento da temperatura da Terra a 1,5-2°C, em relação à era pré-industrial. Há um reconhecimento quase universal, nos domínios científico e político, de que o problema é grave, global, e requer acção imediata.

 

Do lado negativo temos a lamentar a ausência de metas vinculativas e de meios adequados. Os compromissos voluntários de redução de GEE, manifestados pelos diversos países, só permitirão limitar o aumento de temperatura global em 3°C (segundo alguns cientistas, mais perto dos 4°C). A esse nível arriscamos consequências de gravidade sem precedentes. Os meios disponíveis são muito insuficientes: o envelope financeiro aprovado em Paris é apenas 100 000 M€; quando, segundo o FMI, os subsídios directos aos combustíveis fósseis a nível mundial são 10 vezes superiores, e os custos indirectos 40 vezes superiores.

 

Porquê este fosso entre palavras e actos? Obviamente por força dos lobbies que defendem o status quo: países exportadores de combustíveis fósseis, grandes empresas dos sectores energético, construção e automóvel.

 

Por outro lado, o que nos diz a ciência nacional? A título de exemplo, no último mês foram defendidas na Universidade Nova de Lisboa várias teses de doutoramento e mestrado que dão pistas sobre as tendências prováveis e as opções desejáveis:

 

-          A energia torna-se mais cara quando o consumo aumenta, por força da escassez dos recursos disponíveis. Uma aposta séria na eficiência energética é a ÚNICA forma de reduzir simultaneamente os custos sociais, ambientais e económicos da alteração climática. Isto é especialmente claro no sector eléctrico, onde sofremos de excesso de capacidade de produção;

 

-          Já temos neste momento em Portugal excesso de capacidade de bombagem hidroeléctrica; se o programa de barragens for avante, teremos mais do dobro da capacidade necessária;

 

-          Já cumprimos as metas de interligação eléctrica de Portugal com Espanha previstas para 2020 e 2030: 15% em capacidade instalada, e uns folgados 20% em termos de disponibilidade efectiva; não é preciso mais;

 

-          É já hoje muito interessante, no sector dos serviços, apostar no auto-consumo de energia fotovoltaica; a limitação está no acesso ao financiamento;

 

-          Temos um sistema de transportes públicos muito ineficiente quando comparado com outras cidades europeias. Factores chave: tarifário e coordenação inter-modal.

 

As soluções são conhecidas desde há anos e são reforçadas pela investigação recente, nos domínios tecnológico, económico e ambiental. Mas não têm sido posta em prática. Faltam políticas consequentes, que só irão aparecer com uma cidadania mais actuante.

 

João Joanaz de Melo é licenciado e doutorado em Engenharia do Ambiente e professor na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa. Amante da Natureza, activista nas horas vagas, foi fundador e presidente do GEOTA.

TAGS: Opinião , João Joanaz de Melo , COP de Paris , tendências , energia
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