Colunista João Joanaz de Melo (Energia - Tendências): Energia e clima na era Trump

30.11.2016

Novembro de 2016 foi um mês de emoções fortes para os cidadãos do mundo preocupados com as alterações climáticas: dia 4 entrou em vigor o Acordo de Paris, dia 8 Donald Trump foi eleito Presidente dos EUA, dias 7 a 18 decorreu a 22ª Conferência das Partes da Convenção Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (COP22-UNFCCC).

 

A rápida entrada em vigor do Acordo de Paris surpreendeu a maioria dos analistas. Podemos assumir este avanço como um bom sinal, demonstrativo de que os dirigentes políticos mundiais estão convictos de que a alteração climática é um assunto sério e premente.

 

Já a eleição de Donald Trump pode ser descrita como um choque. Não tenhamos ilusões: a Administração Trump será certamente pior para as negociações climáticas do que a Administração Obama. Por outro lado, não vale a pena entrar em pânico ou esmorecer. Trump já demonstrou sobejamente a sua inteligência e pragmatismo, e quando confrontado com as realidades da vida irá certamente corrigir a sua posição, em matéria de clima como noutras: a campanha eleitoral acabou, agora o jogo é outro.

 

Uma realidade da vida é que a melhor ciência disponível nos diz que o clima está a mudar por influência humana; a generalidade dos cidadãos e dirigentes mundiais já percebeu isso, actuar nesta matéria tornou-se um imperativo incontornável. Outra realidade da vida é que a economia da energia está a mover-se inexoravelmente dos combustíveis fósseis e projectos megalómanos para as energia renováveis e sistemas inteligentes descentralizados.

 

Em muitos países e em particular nos EUA, o sector das novas energias é um dos mais dinâmicos, enquanto o sector petrolífero, embora ainda muito poderoso, está claramente em decadência. Trump é um homem de negócios, estas realidades não vão escapar à sua atenção. Numa conversa com jornalistas do New York Times duas semanas após a eleição, Trump já reconheceu existir “alguma conexão” entre o clima e as acções humanas, estando ainda a estudar a sua posição futura sobre o Acordo de Paris.

 

As negociações da COP em Marraquexe decorreram como seriam de esperar: estamos na fase de negociar o diabo dos detalhes. Não desprezando a relevância da posição futura dos EUA, bem mais preocupante é o facto de as contribuições nacionais já anunciadas para a redução de emissões de gases de efeito de estufa (GEE) só permitirem limitar o aquecimento global 3 a 4 °C acima da era pré-industrial — o dobro dos 1,5 a 2 °C estipulados em Paris. Por outras palavras, temos um trabalho colectivo árduo pela frente para conseguir cumprir estas metas.

 

O que deve a Europa (e Portugal) fazer agora? Exactamente o mesmo seja qual vier a ser a posição da Administração Trump sobre o clima:

 

- Apostar a sério na eficiência energética em todos os sectores, de longe a forma melhor e mais económica de reduzir as emissões de GEE e a nossa dependência externa;

 

- Criar instrumentos económicos eficazes, a nível nacional, europeu e internacional, que promovam a transição para as energias renováveis e outras tecnologias de baixo carbono, começando pela eliminação dos subsídios danosos aos combustíveis fósseis e ao sector energético. Um working paper do FMI (insuspeito de preconceitos ecologistas) estima que a eliminação de tais subsídios levaria a uma redução de 20% nas emissões mundiais de GEE;

 

- Repensar o nosso estilo de vida consumista, um grande desafio de mudança de mentalidades. Vivemos numa sociedade insustentável. Somando-se às alterações climáticas, temos de enfrentar ameaças como a escassez de água, a degradação dos solos, a perda de biodiversidade, a depleção de recursos naturais, as migrações, a pobreza, a fome, a guerra. Usando as palavras do Papa Francisco (cf. encíclica Laudato Sí), precisamos de uma conversão ecológica.

 

MÃOS À OBRA!

 

João Joanaz de Melo é licenciado e Doutorado em Engenharia do Ambiente e professor na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa. Amante da Natureza, ativista nas horas vagas, foi fundador e presidente do GEOTA.

TAGS: Opinião , João Joanaz de Melo , energia , tendências
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