Colunista João Joanaz de Melo (Energia - Tendências): Petróleo barato: bom ou mau?

25.01.2016

Nos últimos tempos o preço do petróleo tem vindo a atingir mínimos históricos — um facto agradável para os consumidores, desagradável para os produtores. Em 2008, o crude chegou a atingir 140 USD/barril; há poucos dias desceu a 28 USD/barril.

 

Causas estruturais desta evolução incluem a atenção crescente à eficiência energética e o progresso das energias renováveis, com destaque para a eólica e fotovoltaica. Embora o ritmo destes investimentos seja lento, têm motivações estratégicas (ambiente, segurança, autonomia) e, uma vez concretizados, essa quota de mercado nunca mais reverte para as energias fósseis, reduzindo tendencialmente a procura destas.

 

Também as alternativas fósseis ao petróleo, como o gás de xisto, continuam a marcar pontos. Há ainda a considerar a existência de elevados subsídios aos combustíveis fósseis, uma distorção de mercado que também reduz os preços.

 

O colapso rápido dos preços reside em razões conjunturais. A procura mundial tem estado praticamente estagnada devido ao arrefecimento das economias. Os países exportadores de petróleo, em especial na OPEP, não têm sido capazes de se entender quanto às quotas de produção, gerando excedentes e consequente baixa de preços; uma das razões é tentativa de alguns membros da OPEP levar à bancarrota os produtores americanos, uma política até agora sem sucesso que tem resultado em perdas consideráveis para todos os produtores; outra questão importante é a escalada do conflito entre a Arábia Saudita e o Irão, principais potências regionais no Médio Oriente e actores essenciais na OPEP.

 

As causas estruturais da instabilidade do preço do petróleo mantêm-se: grande concentração geográfica da produção em regiões sofrendo de instabilidade política; procura pouco elástica face ao preço por questões técnicas; produção fortemente cartelizada; meios de produção e transporte altamente vulneráveis, seja a conflitos armados ou a fenómenos meteorológicos. A escassez física não é ainda um problema, mas vai ser nas próximas décadas com a depleção das jazidas mais acessíveis.

 

Seria portanto um erro crasso basear qualquer política energética em expectativas de preços baixos do petróleo — seja do ponto de vista das empresas ou das políticas públicas. A única certeza que podemos ter sobre o preço do petróleo é que vai continuar instável em qualquer cenário previsível.

 

Preços do petróleo baixos têm a desvantagem de desincentivar a procura de alternativas. Mas têm a vantagem de criar uma folga orçamental, se existir a visão e a coragem de aplicar essa folga, não na mera redução de custos no curto prazo, mas em investimentos em eficiência energética e em energias renováveis descentralizadas.

 

Estas são as únicas soluções que nos garantem a prazo menor impacte ambiental, custos mais baixos e estáveis, e menor dependência energética.

 

É portanto imperativo que sejam criados mecanismos de captura destas poupanças, e seu investimento em medidas que melhorem estruturalmente o nosso ineficiente sistema energético — designadamente por via fiscal e outros métodos de incentivo.

 

João Joanaz de Melo é licenciado e doutorado em Engenharia do Ambiente e professor na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa. Amante da Natureza, activista nas horas vagas, foi fundador e presidente do GEOTA.

TAGS: Opinião , João Joanaz de Melo , preço do petróleo , tendências , energia
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