Colunista João Peças Lopes (Energia - Tecnologia): Veículos elétricos: a nova revolução do setor elétrico

27.04.2017

Os sistemas de elétricos de energia enfrentam atualmente um novo e importante desafio, que se assume também como uma grande oportunidade, e que consiste na integração em larga escala de veículos elétricos a ligar à rede elétrica. Esses veículos dispõem de baterias de elevada capacidade de armazenamento, podendo ser carregadas de forma lenta ou rápida. O veículo elétrico será assim uma carga elétrica móvel e também um dispositivo de armazenamento de eletricidade. Quando estacionados e ligados à rede elétrica, os veículos elétricos vão absorver energia elétrica e armazená-la, podendo depois fornecer parte dessa eletricidade à rede. Esta última característica é conhecida por conceito V2G (veículo para a rede, do inglês vehicle-to-grid), permitindo a disponibilização de vários serviços de sistema, tais como reserva e injeção de potência para apoio à operação sistema, descongestionando ramos e apoiando o equilíbrio entre procura e oferta.

 

A massificação da mobilidade elétrica terá impactos significativos no planeamento e operação dos sistemas elétricos de energia, por constituir uma carga adicional que terá simultaneidades elevadas em períodos do dia que coincidem com a chegada a casa dos condutores destes veículos. Ocorre que esses períodos coincidem em geral com o momento em que ocorre o pico do consumo do diagrama de cargas tradicional – o início da noite. No entanto, o veículo elétrico apresenta uma característica de flexibilidade de carregamento da sua bateria que pode e deve ser utilizada para evitar sobrecargas nas redes e no sistema electroprodutor. Com efeito, quando se dispõe de um período de várias horas para carregar as baterias dos veículos elétricos, normalmente durante a noite, é possível modular esse carregamento da bateria, transferindo essa carga para os períodos de vazio do diagrama de cargas. A esse tipo de carregamento chama-se de carregamento inteligente ou de smart charging na literatura anglo saxónica. De salientar que esta filosofia de smart charging deve também ser explorada para carregar as baterias quando ocorrer uma maior disponibilidade por parte dos recursos energéticos primários renováveis, contribuindo assim claramente para a descarbonização da mobilidade.

 

Daqui resulta que, de uma forma genérica, o sistema elétrico conseguirá acomodar sem necessidade de grandes reforços e investimentos (nomeadamente em infraestruturas de rede e de geração) a futura massificação da mobilidade elétrica, desde que sejam implementadas estratégias inteligentes de controlo de carregamento, a coordenar com os operadores da rede elétrica e com a disponibilidade das fontes de energia renovável. 

 

João Peças Lopes é administrador do Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores, Tecnologia e Ciência (INESC TEC) e Professor Catedrático da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto. É doutorado em Engenharia Eletrotécnica e de Computadores e foi responsável por dezenas de projetos nacionais ou europeus nesta área, tais como a definição de especificações técnicas para a integração de energia eólica no Brasil. É vice-presidente da Associação Portuguesa de Veículos Elétricos. 

TAGS: Opinião , João Peças Lopes , energia , tecnologia
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