Colunista João Peças Lopes (Energia-Tecnologia): Armazenamento de eletricidade distribuído

29.05.2017

O aumento crescente da produção renovável distribuída, com maior visibilidade para o caso da produção solar fotovoltaica ligadas diretamente nas redes de BT, tem vindo a criar problemas à exploração destas redes. Tal decorre de, durante os períodos de maior produção, normalmente entre as 12h00 e as 15h00, haver um menor consumo local de eletricidade e assim ocorrerem frequentemente inversões dos trânsitos de potência, que passam a ser de jusante para montante, o que, associado ao facto de estas redes apresentarem em geral uma resistência que predomina sobre a reactância, provoca sobretensões na rede, que podem reduzir os níveis de qualidade do serviço e determinar a atuação das proteções dos equipamentos de produção, retirando-os de serviço. Tal situação traduz-se por uma redução da energia efetivamente entregue aos consumidores, no caso de autoconsumo, e à rede, constituindo uma situação a evitar.

 

Por outro lado, a massificação da produção solar fotovoltaica irá provocar a nível global uma redução do consumo líquido durante o dia, dando lugar a uma rampa acentuada de crescimento do consumo no final da tarde, princípio da noite, situação conhecida por “pescoço de pato” e que já é crítica em sistemas como os da Alemanha e Califórnia. Esta situação exige uma resposta muito rápida por parte dos meios de produção convencional, que enfrentam rampas de crescimento de produção muito significativas.

 

Para gerir toda esta situação, é cada vez mais importante dispor de sistemas de armazenamento de eletricidade, em particular baterias de acumuladores, que podem estar distribuídas nas redes de distribuição, podendo ser propriedade dos operadores de rede ou ser detidas pelos próprios consumidores / produtores, de acordo com um racional de redução da dependência da rede elétrica.

 

Estes sistemas armazenariam os excessos de produção relativamente ao consumo local, para entregar essa produção mais tarde quando o consumo subir e a produção local diminuir, para além de permitirem evitar variações rápidas da produção local, funcionando numa lógica de agregação e compensação de variações associadas ao conceito de central virtual local.

 

Esta solução tem-se revelado, contudo, pouco interessante sob o ponto de vista económico. O preço das baterias de acumuladores ainda continua bastante elevado, 300 a 800 €/KWh, nomeadamente para as baterias de iões de lítio. Espera-se, contudo, estes valores se reduzam para mais de metade por volta de 2030, tornando economicamente interessante a utilização destas baterias, mesmo a nível doméstico, nomeadamente quando associado à autroprodução.

 

Neste cenário haverá vários benefícios para a exploração do sistema, permitindo descongestionar ramos, reduzir perdas, diferir investimentos no reforço de rede, disponibilizar serviços de balanço ao sistema como um todo, e reduzir as rampas de potência a subir associadas à redução da produção solar fotovoltaica do final da tarde. Esta será assim uma solução de futuro que se materializará dentro de 10 anos.

 

João Peças Lopes é administrador do Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores, Tecnologia e Ciência (INESC TEC) e Professor Catedrático da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto. É doutorado em Engenharia Eletrotécnica e de Computadores e foi responsável por dezenas de projetos nacionais ou europeus nesta área, tais como a definição de especificações técnicas para a integração de energia eólica no Brasil. É vice-presidente da Associação Portuguesa de Veículos Elétricos.

TAGS: Opinião , João Peças Lopes , energia , tecnologia , baterias , iões de lítio
Vai gostar de ver
VOLTAR