João Peças Lopes (Energia-Tecnologia): Grandes interligações - Uma realidade no futuro próximo

20.02.2018

As redes elétricas foram inicialmente concebidas para interligar os centros produtores e os consumidores com preocupações de eficiência no transporte e distribuição de energia e redundância para garantir níveis de segurança e continuidade de serviço elevadas. Com o evoluir dos sistemas elétricos foram sendo desenvolvidas interligações entre países ou áreas de controlo com o objetivo de obter níveis de segurança de abastecimento acrescidos e, mais recentemente, permitir o desenvolvimento de mercados de eletricidade em grandes regiões.

 

Com o desenvolvimento da produção de eletricidade a partir de fontes renováveis (nomeadamente a eólica e a solar fotovoltaica, cujos custos de investimento se têm reduzido significativamente), começou a ser evidente a necessidade de reforço da infraestrutura do sistema transmissão de eletricidade para permitir o transporte desta eletricidade entre áreas geográficas. Ocorre ainda que as zonas geográficas onde há abundância de recurso primário se encontram frequentemente longe das zonas de maior consumo. Por outro lado, o atual e futuro desenvolvimento da produção eólica off-shore, no Norte da Europa, e o desenvolvimento da produção solar fotovoltaica no Sul da Europa e Norte de África estão a conduzir-nos para o desenvolvimento de uma super-rede em Corrente Contínua com capacidade para recolher a produção nessas áreas remotas e veicular grandes potências interligando estas áreas geográficas.

 

Assim, é de esperar o desenvolvimento de uma rede de cabos submarinos entre o Norte da Europa e o Sul da Europa que permita grandes intercâmbios de potência, transferindo energia do Sul para o Norte durante o dia e do Norte para o Sul durante a noite, pois em geral o recurso eólico é mais abundante durante a noite e o solar está apenas disponível durante o dia.

 

É também possível imaginar o transporte de eletricidade de origem renovável de um lado de um continente para o outro, em terra, recorrendo a grandes corredores de linhas em HVDC (High Voltage Direct Current, no jargão anglo-saxónico). A China tem estado a liderar o desenvolvimento destas soluções, alimentando cidades como Pequim e Xangai com grandes interconectores, com comprimentos superiores a 3.000 Km, que ligam a produção renovável com origem na Mongólia a estas regiões fortemente consumidoras de eletricidade.

 

Ligações à escala intra-continental e inter-continental começam agora a ser possíveis, recorrendo a sistemas de 1,1 MV, percorrendo distâncias de mais de 3.000 Km, com capacidade de 12 GW e com perdas inferiores a 10%. Os sistemas HVDC vão assim implantar-se a médio prazo no planeta Terra.

 

Os sistemas HVDC vão promover ainda mais o desenvolvimento da produção de eletricidade a partir de fontes renováveis, recolhendo-a em locais remotos e transportando-a até aos grandes centros de consumo nas áreas urbanas. Simultaneamente a conversão de corrente contínua em corrente alternada está a evoluir tecnologicamente para permitir a disponibilização de serviços de sistema para apoio ao balanço entre oferta e procura e controlo de tensão, numa visão integrada que revolucionará o sistema elétrica do futuro numa lógica de “De uma Mega-rede até uma Microrede”, descarbonizando a economia e garantindo elevada qualidade de serviço e resiliência.

 

João Peças Lopes é administrador do Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores, Tecnologia e Ciência (INESC TEC) e Professor Catedrático da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto. É doutorado em Engenharia Eletrotécnica e de Computadores e foi responsável por dezenas de projetos nacionais ou europeus nesta área, tais como a definição de especificações técnicas para a integração de energia eólica no Brasil. É vice-presidente da Associação Portuguesa de Veículos Elétricos.

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