Colunista José Pedro Matos (Água): Novas ferramentas para compreender cheias urbanas e os seus riscos

26.09.2016

Periodicamente em Portugal populações são atingidas por cheias de menor ou maior intensidade, muitas vezes com consequências graves para aqueles que são diretamente afetados. Tecnicamente o problema pode revelar-se complexo. De facto, depende da incerteza inerente ao fenómeno, da ocupação e uso do solo nas bacias de montante, do estado de conservação e da operação dos sistemas de drenagem, da exposição de infraestrutura e populações à inundação e, consoante a localização, da influência da maré e/ou das condições em linhas de água a jusante. Por outro lado, as medidas de prevenção e proteção a adotar podem requerer investimentos avultados e alterações de fundo nos sistemas existentes.

 

A incerteza associada aos eventos de precipitação extrema faz com que áreas e bairros inundados não se repitam, de um modo geral, com grande frequência. Se, por um lado, esta distribuição do risco é certamente desejável, por outro pode levar a que tanto os decisores políticos como a sociedade em geral “esqueçam” o ocorrido e deem uma prioridade secundária à proteção contra cheias urbanas e à sua prevenção.

 

Como em muitas outras áreas do conhecimento, compreender em detalhe cheias urbanas tem-se tornado cada vez mais acessível. Tal pode ser sentido ao nível de obtenção de dados como, por exemplo, modelos digitais do terreno, monitorização e inspeção da rede de drenagem ou medição em tempo real da precipitação. Do ponto de vista do tratamento da informação, os progressos têm também sido notáveis com programas gratuitos bastante úteis, como por exemplo: o softwareR”, que permite efetuar a análise estatística de fenómenos extremos com bastante facilidade; o sistema de informação geográfica QGIS, para manipular dados de base; versões recentes dos programas HEC-RAS (River Analysis System, US Army Corps of Engineers) ou BASEMENT (Swiss Federal Institute of Technology Zurich), que viabilizam a modelação de ondas de cheia em duas dimensões (uma característica particularmente útil para obter representações adequadas de como o escoamento pode afetar zonas densamente urbanizadas) e, finalmente, programas como o SWMM (Storm Water Management Model, US Environmental Protection Agency), que possibilita a simulação do comportamento de uma rede de drenagem com um grande nível de detalhe.

 

Embora devido à sua natureza excecional, os riscos associados a eventos de precipitação extrema sejam muito difíceis de eliminar por completo, é sobretudo através de estudos e ações atempadas que podem ser reduzidos. Hoje em dia, mesmo com um investimento moderado, é possível estimar como uma zona urbana pode ser afetada por cheias e estudar quais as alternativas mais eficientes para lidar e minimizar possíveis consequências.

 

Como sociedade, caminhamos relativamente depressa no sentido de evitar riscos desnecessários. Neste percurso o conhecimento é um grande aliado. Se é verdade que cada vez mais se dá ênfase aos perigos da ocupação de zonas potencialmente inundáveis e se investe no melhoramento dos sistemas de drenagem pluvial, no futuro assistir-se-á a um aumento do nível médio das águas do mar e, dependendo da região, a uma maior frequência de episódios de precipitação intensa. Como consequência das alterações climáticas espera-se portanto um incremento dos caudais de ponta de cheia e, nas zonas costeiras, uma redução das capacidades de vazão dos sistemas de drenagem pluvial. Face a um destino incerto será interessante observar até que ponto se terá a clarividência de, proactivamente, trabalhar com antecedência para evitar possíveis desastres.

 

José Pedro Saldanha Matos licenciou-se em Engenharia Civil pelo IST (Instituto Superior Técnico) em 2008, tendo iniciado actividade profissional e de investigação na área do saneamento. No âmbito do doutoramento, desenvolvido no IST e na EPFL (Instituto Federal de Tecnologia Suíço em Lausanne) e concluído em 2014, a sua investigação passou a abranger também a hidrologia. Hoje exerce actividade na EPFL, onde estuda a quantificação de riscos, modelação de incerteza e a modelação sistemas de distribuição de água. 

TAGS: Opinião , João Pedro Saldanha Matos , água , cheias
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