Colunista José Pedro Matos (Água-Tecnologia): Sensorização: conhecer é melhor do que acreditar

23.06.2016

O primeiro parágrafo desta coluna, escrito em outubro do ano passado, realçou os níveis crescentes de monitorização dos sistemas e de aquisição de dados por parte das entidades gestoras do setor da água e saneamento. De facto, a qualidade e quantidade da informação que está a ser recolhida está a levar a uma verdadeira mudança de paradigma. De mãos dadas com a imensa potencialidade da monitorização emergem novos desafios, designadamente ao nível de como melhor aproveitar com todos os dados que que são gerados. São desafios que vale a pena enfrentar.

 

Este artigo conta com a valiosa colaboração de Sérgio Teixeira Coelho, que escolhe dar ênfase precisamente às novas possibilidades de sensorização. É uma opinião extremamente bem informada (e que partilho) de alguém que, tal como a inúmeros profissionais do setor, me ensinou muitíssimo sobre a interpretação e a modelação de redes de distribuição de água. É também relevante que, presentemente, Sérgio T. Coelho se dedique à Baseform, uma empresa com um caráter inovador que a torna não só inspiradora, mas talvez até invejável, especializada precisamente em produzir informação relevante a partir da monitorização de sistemas de distribuição de água. Melhor que ninguém, quem se dedica de corpo e alma a gerar conhecimento sabe dar o valor devido aos dados de base.

 

De facto, há uma crescente disponibilidade de medidores e sensores de caudal, pressão, nível, qualidade da água e outras grandezas, para infraestruturas urbanas de água, com soluções tecnológicas cada vez mais flexíveis, beneficiando da tecnologia sem fios e podendo ser instaladas progressivamente, sem os grandes investimentos e as grandes decisões que um sistema SCADA clássico acarretava. O retorno de investimento é cada vez mais medido em meses. Bem feitas as contas, a barreira que separa uma entidade gestora de uma sensorização do sistema, que lhe permita ser eficiente, eficaz e sustentável na sua atividade, é mais conceptual do que real.

 

Com a multiplicação dos sensores, podemos hoje combinar dados de diversas fontes — dados de monitorização, socio-demográficos, geográficos, de faturação — como nunca antes foi possível, e chegar a um entendimento do comportamento das pessoas e das próprias redes, que nos permita prever e gerir os sistemas para uma realidade concreta.

 

A engenharia e o planeamento de infraestruturas urbanas e das próprias cidades estão em plena revolução. Ao invés de confiar apenas em versões projetadas da realidade, como aconteceu nos séculos passados (no séc XX habituámos-nos a chamar-lhes "modelos"), podemos cada vez mais observar e registar essa realidade em detalhe. Isso permite-nos adaptar continuamente a paisagem construída e as infraestruturas às mudanças que realmente afetam as comunidades, e não a planos feitos 10 ou 20 anos antes.

 

No caso concreto das infraestruturas públicas de água, essas necessidades estão evidentemente em mudança constante. Não apenas os potenciais desafios tais como as mudanças climáticas ou as crises de energia, mas os factos diários, semanais, anuais das nossas comunidades urbanas — basta observá-los para entender como podemos estar errados quando não o fazemos. Não há plano diretor ou projeto de execução que adivinhe melhor a realidade do que um bom conjunto de sensores ou medidores em direto.

 

José Pedro Saldanha Matos licenciou-se em Engenharia Civil pelo IST (Instituto Superior Técnico) em 2008, tendo iniciado actividade profissional e de investigação na área do saneamento. No âmbito do doutoramento, desenvolvido no IST e na EPFL (Instituto Federal de Tecnologia Suíço em Lausanne) e concluído em 2014, a sua investigação passou a abranger também a hidrologia. Hoje exerce actividade na EPFL, onde estuda a quantificação de riscos, modelação de incerteza e a modelação sistemas de distribuição de água. 

TAGS: Opinião , José Pedro Matos , tecnologia
Vai gostar de ver
VOLTAR