Colunista José Matos (Água - Tecnologia): Otimização de recursos? Uma solução com futuro porém desconfortável

04.12.2015

Vivemos num período em que a ciência e a indústria evoluem a um ritmo acelerado. Inovações ao nível dos conceitos, da instrumentação, dos materiais, dos serviços ou mesmo do software representam acima de tudo oportunidades, mas constituem também desafios para as entidades gestoras.

 

Nas últimas décadas Portugal foi palco de desenvolvimentos notáveis ao nível da distribuição de água e drenagem. Muitos dos sistemas encontram-se hoje estabilizados, tanto no que diz respeito às infraestruturas, como às rotinas e estratégias de operação. Não obstante, enfrenta-se um sério desafio no que diz respeito à reabilitação e subsiste um enorme espaço para melhorias de desempenho.

 

Exemplo de áreas em que estas melhorias são ativamente procuradas são a redução de perdas, o controlo de afluências indevidas, o aumento da fiabilidade e a diminuição de custos operacionais dos sistemas. Através de investimentos adicionais é certamente possível progredir em qualquer destas áreas. Alternativamente, é também possível apostar de forma estruturada na otimização das infraestruturas e recursos existentes.

 

A segunda opção, que infelizmente é preterida na maior parte dos casos, apresenta vantagens significativas para as entidades gestoras; entre outras é bastante mais económica e promove um melhor conhecimento da infraestrutura. Por outro lado, estudar os sistemas de forma sistemática é desafiante em vários sentidos: exige grande familiaridade com a infraestrutura em causa, necessita de conhecimentos teóricos sobre ferramentas de otimização, requer tempo e, não de somenos importância, obriga à responsabilização por eventuais alterações propostas.

 

Esta é, portanto, uma via desconfortável. Para os técnicos poderá ser desconfortável desenvolver modelos matemáticos com vista a aplicações práticas e assumir responsabilidades adicionais. Para os gestores poderá ser desconfortável pôr em causa o status quo do sistema e afetar recursos humanos à sua otimização – uma atividade cujos ganhos não são, regra geral, imediatos.

 

No entanto, vejamos: para além de a otimização apresentar custos muito moderados e promover ganhos económicos e ao nível do desempenho do sistema, quaisquer esforços nesse sentido beneficiam a entidade gestora através da capacitação dos seus quadros. É, então, uma solução com futuro e com pequeno custo de oportunidade.

 

As novas gerações de profissionais do sector estão melhor preparadas que nunca. Têm acesso a uma enorme quantidade de dados, beneficiam de acesso fácil à informação e detêm um conhecimento sem precedentes de ferramentas informáticas adequadas à otimização. Por que não aproveitar estes atributos para, de forma estruturada, rever as práticas instaladas de planeamento e operação.

 

José Pedro Saldanha Matos licenciou-se em Engenharia Civil pelo IST (Instituto Superior Técnico) em 2008, tendo iniciado actividade profissional e de investigação na área do saneamento. No âmbito do doutoramento, desenvolvido no IST e na EPFL (Instituto Federal de Tecnologia Suíço em Lausanne) e concluído em 2014, a sua investigação passou a abranger também a hidrologia. Hoje exerce actividade na EPFL, onde estuda a quantificação de riscos, modelação de incerteza e a modelação sistemas de distribuição de água. O autor escreve, por opção, ao abrigo do novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.

TAGS: Opinião , José Pedro Matos , água , tecnologia , colunista Ambiente Online
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