Manuel Piedade (Resíduos - Tecnologia): A pirólise-gaseificação para aproveitamento energético do CDR

25.01.2016

A estratégia para o aproveitamento dos combustíveis de resíduos (CDR) foi estabelecida no pressuposto que a qualidade desses materiais permitiria um fácil escoamento, fundamentalmente como combustíveis secundários e particularmente na indústria cimenteira.

 

Os requisitos para a utilização nesta indústria são contudo dificilmente atingíveis para os CDR produzidos mas unidades de tratamento mecânico e biológico (TMB) de resíduos urbanos (RU) devido ao elevado teor de humidade e relativa contaminação por materiais orgânicos.

 

Neste contexto, e face ao potencial energético do CDR dos TMB, é importante analisar alternativas que permitam o seu aproveitamento e consequente recuperação dos custos investidos, que a não serem concretizadas implicarão a deposição em aterro.

 

Para além da incineração nas centrais convencionais existentes, podendo funcionar como combustível complementar dos RU e contribuir para o aumento do poder calorífico e uma mais eficaz recuperação energética, existem outras tecnologias de valorização energética que terá interesse avaliar. Não só porque funcionam em escalas mais reduzidas e portanto mais ajustadas à produção que ocorre nos diferentes TMB, mas porque permitirão o aproveitamento de parte da energia térmica gerada para secagem do CDR neles gerados.

 

Entre as tecnologias já hoje testadas refira-se a pirólise-gaseificação, que aproveitando a energia térmica gerada no processo permite a secagem do CDR até teores de humidade compatíveis com a sua utilização como combustíveis secundários na indústria cimenteira, para além da relativa facilidade de utilização dos gases gerados em motores para produção de energia elétrica.

 

A utilização desta tecnologia de secagem pressupõe que parte dos CDR produzidos sejam autoconsumidos no processo, o que, cumulativamente com a perda de água, implica uma diminuição considerável da quantidade de CDR a encaminhar para a indústria cimenteira. Em compensação é garantido o escoamento com os requisitos para a sua comercialização e a possibilidade de geração de energia elétrica que poderá ser utilizada em autoconsumo e na venda do excedente para a rede pública.

 

A opção por esta tecnologia, relativamente à utilização de secadores convencionais com combustíveis fósseis deverá ter em consideração naturalmente, para além dos balanços energéticos obtidos, os aspetos relacionados com os impactes ambientais e económicos dos processos.


Provocação do mês: Sendo irreversível a implementação do sistema PAYT, quais as implicações e custos que terá sobre os diferentes modelos de recolha de resíduos hoje em dia em utilização? Que tecnologias utilizar para minimizar aquelas implicações?

 

Manuel Piedade é licenciado em Engenharia Mecânica pelo IST e especialista em Engenharia Sanitária pela UNL. Foi Administrador de empresas da área do Ambiente (HIDROPROJECTO, AMBIENTSI, HIDROMINEIRA, ARABRANTES) e da área de manutenção industrial (MANVIA, MOTA-ENGIL_MANVIA - Diagnósticos Eléctricos , ACE, PFEIFFER-MANVIA , ACE). Foi docente da disciplina de resíduos sólidos em Mestrados da FCT da Universidade Nova de Lisboa e na Licenciatura em Engenharia do Ambiente da Universidade dos Açores. É Coautor do Guia Técnico nº 15 – Opções de gestão de resíduos urbanos, editado pela ERSAR. Foi sócio fundador da AMBIRUMO – Projetos, Inovação e Gestão Ambiental, Lda, empresa em que atualmente exerce funções de consultoria. O autor escreve, por opção, ao abrigo do novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.

TAGS: Opinião , Manuel Piedade , Ambirumo , resíduos , tecnologia
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