Colunista Manuel Piedade (Resíduos - Tecnologia): As tecnologias de processamento de resíduos

16.11.2015

As transformações ocorridas em Portugal nos últimos 20 anos no domínio dos resíduos sólidos implicaram um esforço técnico e financeiro, cujos resultados, embora ainda aquém dos objetivos, não deixam de ser notáveis pelos progressos e melhorias alcançados ambientalmente.

 

Esta evolução foi conseguida, não só por uma transformação radical da cadeia de processamento dos resíduos, desde a deposição até ao seu aproveitamento e destino último, mas também por uma crescente consciencialização dos produtores como parte interessada e participante naquela cadeia de processamento.

 

O esforço realizado teve contudo algumas condicionantes e consequências, que, naturalmente, se refletem na eficiência dos processos e implicitamente nos custos associados. Refiram-se desde já alguns aspetos com impacte nas soluções que se têm vindo a implementar:

 

- Os processos adotados e tecnologias a eles associados têm na generalidade das situações origem em desenvolvimentos e aplicações efetuados em países com resíduos de características diferentes (nalguns casos acentuadas) das que se verificam em Portugal

 

- A necessidade de se avançar de modo relativamente rápido nas soluções de processamento e tratamento dos resíduos implicou uma replicação generalizada das soluções necessárias aos diferentes objetivos de reciclagem e valorização, situação que não deixou margem para análise crítica e ponderação dos resultados das tecnologias utilizadas, implicando tais circunstâncias, por vezes, estenderem-se em cadeia os erros e ineficiências que tais tecnologias manifestam quando aplicadas à tipologia dos resíduos produzidos em Portugal e, também, ao não considerarem as assimetrias existentes relativamente às várias regiões do País.

 

- A necessidade de articulação das tecnologias de processamento dos resíduos com as operações a montante, de forma a canalizar para o processo apenas as frações mais adequadas, não é normalmente tida em consideração, até porque as entidades que as gerem, alta e baixa, são geralmente distintas e não proporcionam uma análise integrada de todo o ciclo dos resíduos e a consequente adoção das tecnologias mais adequada em toda a cadeia de operações necessárias ao seu processamento.

 

Nesta coluna procuraremos mensalmente efetuar uma abordagem às tecnologias associadas ao processamento dos resíduos, tendo presente a realidade portuguesa, os aspetos acima referidos e o esforço requerido no curto prazo (2020) para dar resposta aos objetivos e metas que terão que concretizar-se nesse horizonte temporal.


Provocação do mês: sendo o vidro um material reciclável, mas que continua a integrar ainda de forma significativa a fração indiferenciada dos resíduos, justifica-se a utilização de processos automatizados para a sua separação nas unidades de TMB? Como forma de recuperação desse material para reciclagem e ou como forma de descontaminação dos produtos obtidos nos TMB? Qual o custo-benefício da adoção destas tecnologias?

 

Manuel Piedade é licenciado em Engenharia Mecânica pelo IST e especialista em Engenharia Sanitária pela UNL. Foi Administrador de empresas da área do Ambiente (HIDROPROJECTO, AMBIENTSI, HIDROMINEIRA, ARABRANTES) e da área de manutenção industrial (MANVIA, MOTA-ENGIL_MANVIA - Diagnósticos Eléctricos , ACE, PFEIFFER-MANVIA , ACE). Foi docente da disciplina de resíduos sólidos em Mestrados da FCT da Universidade Nova de Lisboa e na Licenciatura em Engenharia do Ambiente da Universidade dos Açores. É Coautor do Guia Técnico nº 15 – Opções de gestão de resíduos urbanos, editado pela ERSAR. Foi sócio fundador da AMBIRUMO – Projetos, Inovação e Gestão Ambiental, Lda, empresa em que atualmente exerce funções de consultoria. O autor escreve, por opção, ao abrigo do novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.

TAGS: Opinião , Manuel Piedade , resíduos , tecnologia
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