Colunista Manuel Piedade (Resíduos - Tecnologia): Implementação das recolhas seletivas porta-a-porta

30.11.2016

As metas de reciclagem a que os Sistemas de Gestão de Resíduos Urbanos se obrigam no horizonte de 2020 implicam uma mudança de estratégia relativamente aos modelos de recolha mais generalizados hoje em dia.

 

Como referido em artigo anterior, dois principais tipos de problemas se verificam face aos objetivos de reciclagem e aos processos de recolha de resíduos mais predominantes atualmente:

 

  • na recolha de materiais recicláveis, normalmente por contentores de proximidade, em que o aumento de quantidades não responde às necessidades para se atingirem as metas, dado o grau de cobertura já atingido e a estagnação de crescimento
  • na recolha indiferenciada, com processamento em TMB de forma a valorizar a fração orgânica e materiais recicláveis, devido à contaminação dos resíduos com reflexos nas eficiências e qualidade dos produtos obtidos.

 

Em função do referido verifica-se, desde já, uma tendência, que se vem generalizando, de se optar como solução a recolha porta-a-porta (PaP) abrangendo o maior número de fluxos, de modo a aumentar as quantidades de cada fluxo e as eficiências das operações a jusante, triagens de materiais e valorização orgânica, para incremento das quantidades e qualidade dos diferentes tipos de materiais recicláveis.

 

A implementação das recolhas PaP pressupõe, no entanto, uma metodologia de ação que deverá ter presente não só os aspetos técnicos e económicos, mas também e sobretudo a necessidade de uma comunicação e sensibilização dos utentes, que se constituem como fatores fundamentais do seu êxito.

 

Para além de um levantamento pormenorizado das zonas a abranger, nomeadamente da tipologia habitacional e estrutura viária, para definição da forma mais adequada de deposição dos resíduos e consequente operação de recolha, as frequências a adotar são um aspeto de extrema importância pelo impacte que têm na definição dos circuitos e na sua otimização.

 

Efetivamente, a recolha PaP multimaterial só se tornará competitiva do ponto de vista dos custos com a recolha indiferenciada hoje em prática, se forem adotados intervalos de recolhas dos diferentes fluxos substancialmente mais alargados do que os que se verificam com os resíduos indiferenciados (de um modo generalizado 5 ou 6 vezes por semana para estes).

 

Para se conseguir alterar esta habituação, três aspetos são essenciais:

 

  • utilizar meios de deposição adequados às produções e ciclos de recolha a implementar e que salvaguardem os potenciais efeitos de um armazenamento mais dilatado dos diferentes fluxos de resíduos nas habitações
  • comunicar e sensibilizar os utentes para as práticas de separação na origem, com uma monitorização contínua das quantidades e qualidade dos diferentes fluxos que são recolhidos e, sempre que necessário, com ações personalizadas
  • adotar  sistemas “Pay-As-You-Throw” (PAYT), exemplo de aplicação prática do princípio do poluidor-pagador, constituindo um incentivo de natureza financeira para a promoção da separação na origem e aumento das taxas de recolha seletiva.


Manuel Piedade é licenciado em Engenharia Mecânica pelo IST e especialista em Engenharia Sanitária pela UNL. Foi Administrador de empresas da área do Ambiente (HIDROPROJECTO, AMBIENTSI, HIDROMINEIRA, ARABRANTES) e da área de manutenção industrial (MANVIA, MOTA-ENGIL_MANVIA - Diagnósticos Eléctricos , ACE, PFEIFFER-MANVIA , ACE). Foi docente da disciplina de resíduos sólidos em Mestrados da FCT da Universidade Nova de Lisboa e na Licenciatura em Engenharia do Ambiente da Universidade dos Açores. É Coautor do Guia Técnico nº 15 – Opções de gestão de resíduos urbanos, editado pela ERSAR. Foi sócio fundador da AMBIRUMO – Projetos, Inovação e Gestão Ambiental, Lda, empresa em que atualmente exerce funções de consultoria. 

TAGS: Opinião , Manuel Piedade , tecnologia , resíduos
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