Colunista Manuel Piedade (Resíduos - Tecnologia): Recolhas seletivas porta-a-porta

29.09.2016

As recolhas seletivas porta-a-porta (PaP) apresentam-se atualmente como um imperativo para garantir, em complementaridade com as operações a jusante, as eficiências que são requeridas para se atingirem as metas em termos de valorização e reciclagem a que os Sistemas estão vinculados nos horizontes próximos de 2020 e 2030.

 

O objetivo das recolhas PaP é estabelecer uma logística que aumente a eficiência e maximize a quantidade de resíduos em função dos processos de valorização subsequentes, concorrendo para uma maior eficácia destes, resultante da maior homogeneidade e menor contaminação dos resíduos a processar.

 

Com os processos de recolha atualmente generalizados, pese embora a rede de cobertura existente, dois tipos de problemas principais se verificam:

 

  • na recolha de materiais recicláveis, normalmente por contentores de proximidade, em que o aumento de quantidades não responde às necessidades para se atingirem as metas, dado o grau de cobertura já atingido e a estagnação de crescimento
  • na recolha indiferenciada, com processamento em TMB de forma a valorizar a fração orgânica e materiais recicláveis, devido à contaminação dos resíduos com reflexos nas eficiências e qualidade dos produtos obtidos.

 

A implementação de soluções recollha PaP terá, no entanto, que considerar um conjunto de variáveis, nomeadamente, as características das zonas alvo e tipologia habitacional, as frações a abranger, a possibilidade de aplicação do princípio do poluidor-pagador como o Pay-As-You-Throw (PAYT) e os custos associados.

 

As soluções serão naturalmente diversificadas em função daquelas variáveis, devendo as opções a tomar ter em particular atenção:

 

  • número de frações a abranger em função dos processos de tratamento e valorização a jusante
  • tipologia dos meios de deposição adequados à estrutura habitacional e viária
  • veículos de recolha com suficiente versatilidade para abrangência do maior número de frações
  • frequência das recolhas adaptadas às produções e características de cada fração
  • otimização dos circuitos de recolha de cada fração em função das produções e consequentes frequências

 

Como argumento frequentemente utilizado para a não adoção de sistemas de recolha PaP é apresentado o custo desta modalidade em confronto com o custo da recolha indiferenciada. Sendo este aspeto relevante, não é legítima aprioristicamente esta conclusão para todas as situações de recolha PaP, uma vez que a possibilidade de maiores intervalos das recolhas por melhores condições de deposição, aliados a uma maior concentração das frações a recolher e melhores rendimentos e qualidade nos produtos obtidos no processamento, se poderão traduzir numa relação benefício-custo superior à que se verifica a partir da recolha indiferenciada e subsequente processamento dos resíduos.

  

Manuel Piedade é licenciado em Engenharia Mecânica pelo IST e especialista em Engenharia Sanitária pela UNL. Foi Administrador de empresas da área do Ambiente (HIDROPROJECTO, AMBIENTSI, HIDROMINEIRA, ARABRANTES) e da área de manutenção industrial (MANVIA, MOTA-ENGIL_MANVIA - Diagnósticos Eléctricos , ACE, PFEIFFER-MANVIA , ACE). Foi docente da disciplina de resíduos sólidos em Mestrados da FCT da Universidade Nova de Lisboa e na Licenciatura em Engenharia do Ambiente da Universidade dos Açores. É Coautor do Guia Técnico nº 15 – Opções de gestão de resíduos urbanos, editado pela ERSAR. Foi sócio fundador da AMBIRUMO – Projetos, Inovação e Gestão Ambiental, Lda, empresa em que atualmente exerce funções de consultoria. 

TAGS: Opinião , Manuel Piedade , resíduos , tecnologia , recolhas seletiva , porta-a-porta
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