Colunista Manuel Piedade (Resíduos - Tecnologia): Valorização energética de resíduos

20.12.2016

A valorização energética de resíduos situa-se na cadeia de operações de resíduos como opção última, após esgotadas as hipóteses de outros tipos de processamento tendo em vista a sua valorização e reciclagem.

 

No entanto, continua a verificar-se um relativo preconceito contra a valorização energética dos resíduos, que tem subjacente, normalmente, o facto de ser associada a efeitos poluidores, custos elevados e consequente necessidade de escala para diminuir aqueles custos.

 

Por outro lado a valorização energética em Portugal está totalmente dirigida para o aproveitamento da energia elétrica, desprezando-se a energia térmica, que representa cerca de 65% da energia total gerada na combustão dos resíduos. Esta situação resulta fundamentalmente de as condições climatéricas de Portugal não justificarem, como acontece na maioria dos países da Europa Central e do Norte, a necessidade de aproveitamento da energia térmica para aquecimento doméstico e industrial.

 

Com a orientação estabelecida da eliminação progressiva de resíduos em aterro, com vista à erradicação de deposição direta de RU em aterro até 2030, e tendo em conta a dificuldade de aproveitamento dos CDR como combustíveis secundários, necessariamente a questão da valorização energética dos resíduos se deverá pôr com relativa acuidade, encarando-a como uma alternativa válida na cadeia de processamento dos resíduos e respeitando a hierarquia do seu aproveitamento e valorização.

 

As tecnologias disponíveis, desde a incineração em massa a sistemas de pirólise-gaseificação são soluções possíveis e já devidamente testadas, que permitam apontar para a necessidade da sua implementação tendo em vista a redução a zero da deposição de RU em aterro.

 

Nesta perspetiva, há que “vencer” os preconceitos existentes relativamente à valorização energética, concomitantemente com a adoção de soluções que maximizem o aproveitamento energético gerado nos processos de combustão, ou seja para além da tradicional geração de energia elétrica, associar-se ao processo o aproveitamento da energia térmica.

 

As tecnologias existentes, com eficiência no controlo da poluição (veja-se os casos das instalações de incineração existentes em Portugal, em que as emissões se situam bastante abaixo dos valores-limite estabelecidos), permitem de uma forma geral obter rendimentos térmicos próximos dos 90%.

 

Nestas condições haverá que avaliar entre outros aspetos:

 

  • Qual a dimensão adequada da instalação, tendo em vista os potenciais contributores e o equilíbrio distância / custo de transporte dos resíduos.

 

  • Qual a localização adequada que permita o fornecimento de energia térmica a utilizadores dela necessitando e a colocação da energia elétrica na rede.

 

  • Qual a tecnologia mais adequada em função da tipologia de resíduos e se tal implica a preparação dos mesmos a montante.

 

  • Qual o balanço económico-financeiro, nele considerando para além das receitas de energia, os custos evitados de deposição em aterro e os relativos às emissões de GEE.


Provocação do mês: A pirólise-gaseificação será uma tecnologia a considerar para resolução da problemática dos rejeitados dos TMB? Qual a dimensão adequada para este tipo de instalações? Qual o custo-benefício da adoção desta tecnologia comparativamente à deposição em aterro?       

 

Manuel Piedade é licenciado em Engenharia Mecânica pelo IST e especialista em Engenharia Sanitária pela UNL. Foi Administrador de empresas da área do Ambiente (HIDROPROJECTO, AMBIENTSI, HIDROMINEIRA, ARABRANTES) e da área de manutenção industrial (MANVIA, MOTA-ENGIL_MANVIA - Diagnósticos Eléctricos , ACE, PFEIFFER-MANVIA , ACE). Foi docente da disciplina de resíduos sólidos em Mestrados da FCT da Universidade Nova de Lisboa e na Licenciatura em Engenharia do Ambiente da Universidade dos Açores. É Coautor do Guia Técnico nº 15 – Opções de gestão de resíduos urbanos, editado pela ERSAR. Foi sócio fundador da AMBIRUMO – Projetos, Inovação e Gestão Ambiental, Lda, empresa em que atualmente exerce funções de consultoria. 

TAGS: Colunista Manuel Piedade , resíduos , tecnologia
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