Colunista Manuel Piedade (Resíduos-Tecnologia): Metas de deposição em aterro

25.07.2016

O objetivo da diminuição significativa da deposição de resíduos em aterro é ditado fundamentalmente pela necessidade de redução dos GEE e pelo interesse da maximização da valorização dos materiais contidos nos resíduos, nomeadamente os recicláveis, embalagens e orgânicos, e os com potencial energético.

 

O desenho da estratégia que conduz aquele objetivo assenta assim na conjugação e complementaridade de processos de tratamento que visam reduzir aos chamados resíduos últimos a deposição em aterro.

 

Nesse sentido, foi efetuado um esforço significativo de investimento, cobrindo o País com unidades de triagem de resíduos de embalagens recolhidos seletivamente, de unidades de tratamento mecânico e biológico (TMB), visando a separação de frações materiais e orgânicas para reciclagem e dos restantes materiais para valorização energética como combustíveis secundários, o CDR, e de valorização energética de resíduos indiferenciados, as designadas incineradoras.

 

Ora o que se verifica atualmente é uma dificuldade de escoamento dos produtos obtidos nos TMB, com relevância para os designados CDR, que representam mais de 50% dos materiais contidos nos resíduos e cujo destino, inevitavelmente, é a deposição em aterro. Este facto traduz-se na impossibilidade de se atingirem nas atuais condições as metas da deposição em aterro e os objetivos que lhe estão subjacentes.

 

O principal problema associado á produção do CDR é, como já referido em artigo anterior, a existência de um único consumidor, a indústria cimenteira e os requisitos exigidos a estes combustíveis, que implicam adicionalmente ao tratamento mecânico o consumo de energia para se atingirem níveis de poder calorífico consentâneos com a sua utilização como combustíveis secundários. Atingir esses níveis implica investimentos em fontes de calor de secagem dos materiais, com consumos energéticos significativos, que tornam a relação custo-benefício para o seu aproveitamento dificilmente viável.  

 

Nestas circunstâncias há que repensar a estratégia da produção de CDR e da sua utilização, sendo que o potencial energético nele contido aponta claramente para a valorização energética.

 

Face à dificuldade da sua utilização como combustíveis secundários e com o objetivo de promover o seu aproveitamento, a valorização energética através de instalações dedicadas que possam utilizá-los com as características com que neste momento são produzidos surge como uma hipótese a equacionar.

 

Surgem portanto como soluções possíveis:

 

- a utilização da capacidade disponível ou ampliada das atuais unidades de incineração em serviço, com a vantagem de poderem aumentar o poder calorífico dos resíduos indiferenciados aí processados e portanto os seus rendimentos.

 

- a instalação de novas unidades dedicadas, utilizando tecnologias de “mass burning” ou de leitos fluidizados, que deverão situar-se estrategicamente, de modo a garantir um equilíbrio de transporte a partir dos centros processadores, e preferencialmente, para além da produção de energia elétrica, o aproveitamento da energia térmica que é atualmente desperdiçada nas unidades existentes.  

 

O tratamento dos gases de combustão produzidos nestas unidades é garante de um controlo de emissões que, hoje em dia, não representa uma condicionante, para além de se reduzirem as quantidades de subprodutos a depositar em aterro a materiais relativamente inertes: resíduos dos tratamentos de fumos, que podem ser inertizados e escórias que podem ser valorizadas.

 

Com esta complementaridade de soluções reduz-se substancialmente a deposição em aterro e restringe-se esta aos resíduos últimos com características predominantemente inertes.

 

Manuel Piedade é licenciado em Engenharia Mecânica pelo IST e especialista em Engenharia Sanitária pela UNL. Foi Administrador de empresas da área do Ambiente (HIDROPROJECTO, AMBIENTSI, HIDROMINEIRA, ARABRANTES) e da área de manutenção industrial (MANVIA, MOTA-ENGIL_MANVIA - Diagnósticos Eléctricos , ACE, PFEIFFER-MANVIA , ACE). Foi docente da disciplina de resíduos sólidos em Mestrados da FCT da Universidade Nova de Lisboa e na Licenciatura em Engenharia do Ambiente da Universidade dos Açores. É Coautor do Guia Técnico nº 15 – Opções de gestão de resíduos urbanos, editado pela ERSAR. Foi sócio fundador da AMBIRUMO – Projetos, Inovação e Gestão Ambiental, Lda, empresa em que atualmente exerce funções de consultoria. O autor escreve, por opção, ao abrigo do novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.

TAGS: Colunista , Manuel Piedade , resíduos , tecnologia , aterro
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