Colunista Manuel Piedade (Resíduos-Tecnologia): Preparação de biorresíduos para compostagem em TMB

04.05.2016

Em Portugal a compostagem é efetuada em significativa percentagem através do processamento de resíduos recolhidos indiferenciadamente nas unidades de tratamento mecânico e biológico (TMB).

 

A lógica deste processamento está associada a dois aspetos importantes: por um lado a questão da recolha seletiva de biorresíduos, cuja generalização apresenta alguma dificuldade em função da tipologia habitacional e dos custos decorrentes deste tipo de recolha, por outro a possibilidade de, na fase de tratamento mecânico para a separação da matéria orgânica a compostar, se processar também a separação de outros componentes dos resíduos indiferenciados com potencial de serem encaminhados para reciclagem.

 

O principal problema decorrente da compostagem através das unidades de TMB é o grau de contaminação com que é obtida a matéria orgânica a compostar, não só porque na maioria se incorpora a fração menor que 20 mm, como pelo facto de mesmo na fração acima daquela dimensão haver componentes indesejáveis que não é possível separar com as tecnologias que equipam a maioria daquelas unidades.

 

Mesmo admitindo que as futuras exigências regulamentares sobre fertilizantes não restrinjam a produção de composto exclusivamente a biorresíduos recolhidos seletivamente, como atuar sobre os atuais TMB de modo a garantir que a matéria orgânica a processar se apresente isenta de contaminantes e possa originar um produto com qualidade que cumpra os requisitos para utilização e comercialização? 

 

Uma primeira alternativa será retirar da fração a compostar os componentes de dimensão inferior a 20 mm, onde se concentram uma parte significativa dos contaminantes com impacte sobre a qualidade do produto. Tal significa que uma percentagem ainda considerável de matéria orgânica é rejeitada e terá como destino o aterro.

 

Outra alternativa, que poderá funcionar complementarmente à anterior, será a utilização de sistemas de triagem ótica, que deverão atuar em positivo para a separação da matéria orgânica dos restantes materiais contaminantes desta.

 

Se relativamente à primeira alternativa a modificação nas atuais instalações não se afigura de complicada solução, há fundamentalmente que atuar sobre a malha dos crivos em que se procede à separação granulométrica das várias frações dos resíduos, já a segunda é de difícil implementação por dois aspetos de natureza diferente:

 

- a necessidade de espaço e consequente introdução dos equipamentos nas linhas de tratamento mecânico instaladas

 

- a eficiência obtida através dos  sistemas óticos devido à tipologia do material a processar, com relativa densidade e alto teor de humidade, que impedem uma separação adequada do material que se pretende encaminhar para compostagem por dificuldade de “leitura” do ótico.

 

Parece, pois, de difícil resolução a implementação de soluções nos atuais TMB que permitam a obtenção de um composto com requisitos para a comercialização como fertilizante. 

 

Provocação do mês: As metas de deposição em aterro são consentâneas com a tipologia de processamento atual dos resíduos? Que tecnologias de valorização deverão completar as atuais para se atingirem os objetivos?  

 

Manuel Piedade é licenciado em Engenharia Mecânica pelo IST e especialista em Engenharia Sanitária pela UNL. Foi Administrador de empresas da área do Ambiente (HIDROPROJECTO, AMBIENTSI, HIDROMINEIRA, ARABRANTES) e da área de manutenção industrial (MANVIA, MOTA-ENGIL_MANVIA - Diagnósticos Eléctricos , ACE, PFEIFFER-MANVIA , ACE). Foi docente da disciplina de resíduos sólidos em Mestrados da FCT da Universidade Nova de Lisboa e na Licenciatura em Engenharia do Ambiente da Universidade dos Açores. É Coautor do Guia Técnico nº 15 – Opções de gestão de resíduos urbanos, editado pela ERSAR. Foi sócio fundador da AMBIRUMO – Projetos, Inovação e Gestão Ambiental, Lda, empresa em que atualmente exerce funções de consultoria. O autor escreve, por opção, ao abrigo do novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.

TAGS: Colunista , Manuel Piedade , resíduos , tecnologia , Ambiente Online
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