Colunista Manuel Piedade (Resíduos-Tecnologia): Valorização energética de rejeitados dos TMB

27.01.2017

Os rejeitados do tratamento mecânico dos TMB têm um potencial energético que conduziu à estratégia do seu aproveitamento sob a forma de CDR.

 

Para a concretização dessa estratégia, a maioria das instalações foram complementadas com unidades de preparação de CDR, visando obter um produto com os requisitos definidos pela indústria cimenteira, principal ou único, utilizador deste combustível secundário.

 

No entanto, o que se verifica de facto é a dificuldade de obter, através das atuais instalações de preparação de CDR, um produto com as características definidas para a sua aceitação na indústria cimenteira, fundamentalmente devido ao elevado teor de humidade e também à relativa contaminação com materiais orgânicos.

 

Põe-se, pois, a questão do que fazer para ultrapassar esta situação que, a não ser resolvida, conduzirá à inoperacionalidade das instalações de preparação de CDR, com a consequente perda dos investimentos realizados e à necessidade de deposição em aterro dos rejeitados dos TMB com os naturais custos ambientais e financeiros.

 

Como possíveis soluções para a valorização energética dos rejeitados dos TMB, deverão equacionar-se as que tenham em consideração diversos fatores, nomeadamente: o custo energético da secagem para atingir os requisitos de humidade para a sua utilização como combustível secundário nas cimenteiras, o custo de transporte para queima nas unidades de incineração existentes no pressuposto de eventuais ampliações de capacidade, a instalação de unidades de valorização energética junto dos TMB, adequadas às capacidades da produção dos rejeitados, evitando os transportes destes resíduos e os respetivos custos.

 

Esta última solução deverá ter em conta a escala das instalações e portanto a adoção de tecnologias que garantam a adequação a essa escala e numa ótica de racionalidade económico-financeira.

 

De entre as tecnologias de valorização energética, a gaseificação apresenta-se como uma possível solução adequada às quantidades de rejeitados produzidos em cada TMB, entre outras, pelas seguintes razões:

 

  • Capacidade modular dos fornos, que poderão ser de 2 t/h
  • Secagem prévia dos rejeitados até níveis de 20%, para processamento subsequente e obtenção de gás síntese, limpo e utilizável para geração de energia térmica e elétrica
  • Redução da emissão de gases com efeito de estufa que ocorreria com a deposição em aterro
  • Redução de gases poluentes comparativamente aos que ocorrem na incineração convencional e portanto com processos menos complexos e de mais baixo custo de tratamento das emissões
  • Cinzas resultantes em percentagens relativamente baixas e com características inertes
  • Área de implantação relativamente pequena.

 

A decisão por esta opção deverá naturalmente ter em consideração vários aspetos, de que se relevam os seguintes:

 

  • Quantidades de rejeitados a processar
  • Possibilidade de aproveitamento das energias térmica e elétrica geradas, que se situa em cerca de 65% da energia produzida no processo
  • Custos de investimento e operação
  • Receitas com a venda de energias térmica e elétrica ou custos evitados com a sua utilização em autoconsumo nas restantes instalações de processamento dos resíduos
  • Custos evitados na deposição em aterro e TGR se devida, e custos de transportes relativamente ao processamento em instalações mais distantes dos locais dos TMB


Manuel Piedade é licenciado em Engenharia Mecânica pelo IST e especialista em Engenharia Sanitária pela UNL. Foi Administrador de empresas da área do Ambiente (HIDROPROJECTO, AMBIENTSI, HIDROMINEIRA, ARABRANTES) e da área de manutenção industrial (MANVIA, MOTA-ENGIL_MANVIA - Diagnósticos Eléctricos , ACE, PFEIFFER-MANVIA , ACE). Foi docente da disciplina de resíduos sólidos em Mestrados da FCT da Universidade Nova de Lisboa e na Licenciatura em Engenharia do Ambiente da Universidade dos Açores. É Coautor do Guia Técnico nº 15 – Opções de gestão de resíduos urbanos, editado pela ERSAR. Foi sócio fundador da AMBIRUMO – Projetos, Inovação e Gestão Ambiental, Lda, empresa em que atualmente exerce funções de consultoria.

TAGS: Opinião , Manuel Piedade , resíduos , tecnologia
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