Colunista Manuel Piedade (Resíduos-Tecnologia): Viaturas a gás natural

21.02.2017

A recolha representa uma parte significativa dos custos em toda a cadeia do processamento dos resíduos sólidos.

 

Apesar desse peso, a operação de recolha é normalmente encarada como o “parente pobre” do processo, não tendo acompanhado a evolução tecnológica que se vem verificando nas viaturas a ela afetas, particularmente no que respeita ao combustível usado.

 

Em Portugal, com raras exceções, o combustível mais generalizado é o gasóleo, em que se verifica continuamente um aumento de custo, para além dos custos ambientais resultantes da sua utilização.

 

A instabilidade do mercado de petróleo com reflexos nos custos dos produtos derivados e a procura de soluções mais amigas do ambiente são fatores que deverão nortear a estratégia da renovação das frotas automóveis, particularmente a afeta a serviços de natureza ambiental, como é a recolha de resíduos.

 

O gás natural, pelas suas características, aparece assim como uma alternativa à utilização de combustíveis derivados do petróleo.

 

Como razões que apontam nesse sentido, podem referir-se entre outras:

 

  • O desenvolvimento tecnológico dos motores a gás natural assegura rendimento equivalente aos obtidos com motores a gasóleo
  • O consumo de combustível situa-se em cerca de 30% menos do que na utilização de gasóleo
  • Os motores a gás natural emitem cerca de 35% menos dióxido de carbono do que a gasóleo, e reduzem substantivamente as emissões de monóxido de carbono e não apresentam emissões de enxofre, nem de metais pesados e partículas
  • O nível sonoro de funcionamento dos motores a gás natural é mais silencioso que o dos motores convencionais, situação com relativo impacte na operação das frotas de resíduos, frequentemente realizada em período noturno, e consequente incómodo para as populações
  • Os custos de manutenção, nomeadamente a menor necessidade de mudanças de óleo e de outros componentes afetados pela emissão de partículas, poderão melhorar em relação às viaturas equipadas com motores convencionais.

 

Embora os custos de investimento em viaturas movidas a gás natural possam ser maiores, deverá numa perspetiva de renovação da frota considerar-se a possibilidade de se montarem as superestruturas das viaturas existentes nos novos chassis, pois aquelas têm normalmente um período de vida útil superior ao dos chassis, reduzindo-se assim o esforço de investimento.

 

Sendo, pois, natural a evolução para este tipo de viaturas, há contudo alguns constrangimentos que poderão dificultar a sua generalização e dos quais se referem para muitos municípios e sistemas:

 

  • A dimensão da frota, que não justifica economicamente a instalação de um posto de abastecimento
  • A existência de poucos postos de abastecimento de gás natural e a sua localização remota relativamente às zonas de utilização das frotas.

 

Ultrapassadas as condicionantes referidas, é certamente expetável um crescimento das frotas movidas a gás natural, de que são já exemplo as experiências da LIPOR (em fase de implementação) e da VALORSUL em execução.

 

Manuel Piedade é licenciado em Engenharia Mecânica pelo IST e especialista em Engenharia Sanitária pela UNL. Foi Administrador de empresas da área do Ambiente (HIDROPROJECTO, AMBIENTSI, HIDROMINEIRA, ARABRANTES) e da área de manutenção industrial (MANVIA, MOTA-ENGIL_MANVIA - Diagnósticos Eléctricos , ACE, PFEIFFER-MANVIA , ACE). Foi docente da disciplina de resíduos sólidos em Mestrados da FCT da Universidade Nova de Lisboa e na Licenciatura em Engenharia do Ambiente da Universidade dos Açores. É Coautor do Guia Técnico nº 15 – Opções de gestão de resíduos urbanos, editado pela ERSAR. Foi sócio fundador da AMBIRUMO – Projetos, Inovação e Gestão Ambiental, Lda, empresa em que atualmente exerce funções de consultoria.

TAGS: Opinião , Manuel Piedade , resíduos , tecnologia
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