Colunista Miguel Aranda da Silva (Resíduos): Clima e resíduos….

21.01.2020

Embora o Acordo de Paris de 2015 estabeleça como meta limitar o aumento da temperatura para bem abaixo de 2°C até ao final do século, os compromissos atualmente celebrados conduzem a um aquecimento global acima de 3°C até 2100.

 

A verificar-se este cenário o sul da Europa ficará num estado de seca extrema e permanente, ou até de desertificação, assim como algumas partes dos Estados Unidos, grande parte do Médio Oriente e algumas das áreas mais densamente povoadas da Europa, Austrália, África e América do Sul, provocando graves situações, entre outras, de insegurança alimentar. 

 

Em algumas cidades como Marselha ou Paris, as temperaturas poderão vir a atingir cerca de 50°C no verão. E, neste contexto, infelizmente para nós, a bacia do Mediterrâneo foi classificada como de muito crítica nos próximos anos em termos de stress hídrico.

 

Mas também há o outro lado. Países como Bangladesh e muitas grandes cidades construídas abaixo do nível do mar serão alvo de grandes inundações - por exemplo, Miami, Nova Iorque, Tóquio, Singapura ou Amesterdão. As ilhas da Polinésia, as Maldivas ou as Filipinas poderão desaparecer, originando fenómenos de migração maciça.

 

Não há, portanto, dúvidas sobre a dimensão dos impactos das alterações climáticas, cujas consequências atingem cada vez mais as pessoas, o ambiente e a economia.

 

Mas, a redução das emissões de gases com efeito de estufa não deve ser considerada uma batalha perdida. Existem inúmeras soluções com um impacto potencial considerável. Só o setor dos serviços ambientais pode com a sua ação originar uma redução de até 30% nas emissões de gases com efeito estufa.

 

E, neste contexto, as tecnologias de valorização e tratamento de resíduos têm um contributo importantíssimo a dar para a desejável redução das emissões.

 

A curto prazo e com maturidade tecnológica, podemos salientar soluções como a valorização energética de resíduos não recicláveis, aliás em forte crescimento na Europa, como resultado de políticas de redução de resíduos em aterro, limitações à exportação de resíduos e procura de alternativas a combustíveis fósseis. Destacar também a valorização de resíduos orgânicos e o seu impacto no sequestro de carbono no solo.

 

Com menos maturidade, mas com elevado potencial, podemos identificar a reciclagem de vários materiais (não plásticos) e a utilização de biomassa ou de combustíveis derivados de resíduos sólidos no setor industrial.

 

Estas são algumas das soluções que com o adequado enquadramento regulatório e tendo por base critérios de acessibilidade como a maturidade tecnológica, maturidade comercial, ou impacto económico local podem desempenhar um papel importante na batalha pela redução das emissões de GEE.

 

 

Miguel Aranda da Silva é licenciado em Engenharia do Ambiente pela Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa. Inicia a atividade profissional em 1997 no Departamento de Projetos de Ambiente da HLC- Engenharia e Gestão de Projetos, como Técnico de Projeto, desenvolvendo Estudos Prévios e Projetos para vários sistemas Multimunicipais e Intermunicipais de Gestão de Resíduos Sólidos. Em 1998, assume funções como Diretor Técnico da HLCtejo empresa do Grupo HLC concessionária da exploração do Aterro Sanitário e da rede de estações de transferência e recolha seletiva do Sistema Intermunicipal da RESITEJO. Em 2000, inicia funções na Direção de Engenharia da Empresa Geral do Fomento, S.A. (EGF), sub-holding do grupo Águas de Portugal, para o setor dos resíduos sólidos urbanos. Entre 2005 e 2015, assume funções como Administrador Delegado na VALORLIS, empresa do Grupo da EGF, concessionária da exploração do sistema multimunicipal de tratamento e valorização de resíduos sólidos urbanos da Alta Estremadura. Entre 2010 e 2012, é responsável pela Cadeira de Gestão de Resíduos Sólidos no Mestrado Integrado em Energia e Ambiente da Escola Superior de Tecnologia e Gestão do Instituto Politécnico de Leiria, como Professor Adjunto Convidado. Entre 2014 e 2017, assume funções como Administrador Executivo da VALORSUL, empresa do Grupo da EGF concessionária da exploração do sistema multimunicipal de tratamento e valorização de resíduos sólidos urbanos de Lisboa Norte e Oeste, acumulando a Direção da Central de Valorização Energética, entre dezembro de 2014 e maio de 2016. Inerente as estas funções é, entre 2014 e 2015, Diretor da AVALER - Associação de Entidades de Valorização Energética de Resíduos Sólidos Urbanos e Vice-Presidente da CEWEP - Confederation of European Waste-to-Energy Plants. É, desde abril de 2017, Diretor para a área de Resíduos da VEOLIA Portugal.   

VOLTAR