Colunista Nuno Campilho (Água e Resíduos - Regulação): Se for de borla, então...

01.06.2018

O “Água&Ambiente na hora” publicou um interessante artigo intitulado “Portugueses admitem que água é barata, mas não querem pagar mais”. Interessante... ou curioso?

 

O artigo decorre da conclusão do estudo “Atitudes e comportamentos dos portugueses face à água” e revela algumas contradições, a mais extraordinária de todas, na minha modesta opinião, é que os inquiridos demonstram uma consciencialização ambiental, embora confessem que desperdiçam água. Pudera, digo eu, se são os mesmos a assumir que a água é barata, qual é o problema em desperdiça-la? Depois, também consideram (mal seria se não o fizessem) a sua importância e que sem ela não podem viver. Pagar por isso é que parece ser dispensável...

 

Numa altura em que os combustíveis sobem em flecha e que passou a ser 20€ mais caro (!!!) abastecer um deposito de 55 litros, a gasóleo, em que ficamos? Passamos a beber petróleo, ou a abastecer os carros com água?

 

O consumidor português revela-se, mais uma vez, como um caso (perdido) de estudo. E quem tutela o setor também não parece estar, convenhamos, muito preocupado. Admito a boa política das agregações dos sistemas (já o disse e não mudei de opinião), mas só porque choveu bastante entre fevereiro e abril e as reservas foram repostas, certas palavras parecem ter desaparecido do léxico e outras tantas práticas parecem ter desaparecido do exercício. Penalizar más práticas, taxar o desperdício, poupar, racionalizar, aumentar a capacidade de reserva, explorar novas captações e/ou utilizações, etc. Como bom português, “depois de casa roubada, trancas à porta” e, portanto, temos de esperar por mais um verão/outono seco, para voltarmos ao mesmo. É um bocado como a sarna... quando não há, arranja-se, para termos que nos coçar (acossar também ficavam bem, mas não era uma associação tão evidente e eu sou um tipo um bocado limitado...).

 

Alegres e contentes, continuamos a pagar pouco, por aquilo que sabemos que vale mais, as autoridades assobiam para o lado e, bom, bom, era que, ao contrário do que um célebre economista português defende, houvesse, mesmo, almoços grátis, acompanhados de água... da torneira.

 

Mas todos sabemos que não é assim, certo?

 

Só nos falta, mesmo, pegar na bandeira de partidos políticos mais radicais, em Portugal (agora mais discretos, por razões de equilíbrio parlamentar) e, em registo PREC, reclamar o direito público à água, seja lá o que isso queira dizer, para eles.

 

Para mim, tem todo um significado, permitam-me, mais liberal, e com o que temos evoluído e investido no setor, o direito não só não se perde, como nos continua a assistir... mas, já agora, convém pagar o preço justo por isso. As simple as that!

 

(Nota: bem andou a ERSAR com a recomendação 2/2018 sobre os tarifários sociais. Se o legislador não regulamenta, alguém, no seu perfeito juízo, fez um “favor” às entidades gestoras e chegou-se à frente substituindo-se, ao mesmo, numa tarefa que lhe competia Não tenham é ilusões em relação aos automatismos.... Bem hajam!)

 

Nuno Campilho é licenciado em Relações Internacionais pela Universidade Lusíada e Pós-graduado em Comunicação e Marketing Político e em Ciência Política e Relações Internacionais. Possui ainda o Executive MBA do IESE/AESE. Foi presidente da União das Freguesias de Oeiras e São Julião da Barra, Paço de Arcos e Caxias e consultor especializado em modelos de gestão de serviços públicos de água e saneamento. Foi administrador dos SMAS de Oeiras e Amadora e chefe de gabinete do Ministro do Ambiente Isaltino Morais. Exerceu ainda funções de vogal do Conselho de Gerência da Habitágua, E.M.. É membro da Comissão Especializada de Inovação da APDA e Diretor Delegado dos SIMAS de Oeiras e Amadora.

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