Colunista Nuno Medeiros (Água-Tecnologia): Blockchain – que implicações para o setor

13.11.2017

Quando se ouve falar em blockchain o nosso racional foca-se de imediato nas FinTech e como o setor da banca irá interagir e se revolucionar neste novo mundo do dinheiro digital (cryptocurrency). É assim conveniente definirmos com maior profundidade o que é o blockchain para posteriormente tentar refletir sobre qual o seu potencial no setor.

 

Desde logo é importante esclarecer que blockchain não é equivalente ao bitcoin, mas derivou da necessidade desta criação e da inerente inovação digital. O blockchain é um conjunto de registos (base de dados) que, decorrente de uma combinação inteligente e eficiente de criptografia, de lógica matemática de engenharia e de análise do comportamento económico (Protocolo Satoshi), permitiu que este tenha caraterísticas públicas e inclusivas e simultaneamente seja imutável, encriptado e inviolável. O blockchain é público pois estando residente na rede, qualquer pessoa pode aceder ao mesmo e consultar as transações; o blockchain é inclusivo porque as verificações de segurança são menores e mais simples e não depende do equipamento de suporte, o que lhe permite ser utilizado por mais pessoas e agentes económicos, tendo nos mercados emergentes um potencial de utilização muito elevado; as transações efetuadas no blockchain são imutáveis, sendo verificadas e armazenadas de forma sequenciar as mesmas, permitindo sempre consultar a sua origem e percurso; o blockchain é totalmente encriptado, garantindo uma segurança digital que o torna inviolável.

 

Com base nos atributos do blockchain, os modelos de negócio aos quais o mesmo mais facilmente se aplica serão compostos por transações que exijam rastreabilidade, registos únicos e não alteráveis, com cadeias de validação hierarquizada/por níveis e em que seja necessário um aumento/conservação da relação de confiança entre os membros da rede de negócio.

 

Associado ao blockchain temos o Hyperledger, um projeto da Linux Foundation, com o objetivo de criar uma open source transversal às indústrias, incluindo atualmente IT, Finanças, Saúde e Transporte, para o desenvolvimento de tecnologias utilizando Blockchain. Repare-se assim que os setores da saúde e transporte, ambos com envolvimento em processos complexos de distribuição de produtos, estão já a criar novos modelos de negócio assentes no blockchain. E o setor da água e saneamento?

 

Reflitamos sobre eventuais vantagens que o setor poderá tirar deste novo paradigma, sendo apresentados dois tópicos:

 

a)    Dinheiro Digital - é reconhecido que os pagamentos imediatos, sem intermediários, sem custos de processo e integralmente rastreáveis alteram significativamente a experiência do Cliente com as organizações ao nível do pagamento dos serviços, pelo que o dinheiro digital terá certamente impacto na experiência dos clientes no pagamento dos serviços de abastecimento de água e de saneamento. Dependendo do nível de desenvolvimento da tecnologia e da rede (stakeholders envolvidos), a integração do blockchain poderá ser maior ou menor, aumentando sempre o nível de rastreabilidade e de confiança na transação;

 

b)    Qualidade de Serviço - caraterísticas públicas, imutáveis e invioláveis são certamente atributos dos indicadores de qualidade de serviço de qualquer entidade gestora de serviços e água e saneamento, devendo os registos que produzem esses indicadores serem rastreáveis, únicos e não alteráveis. Assim sendo, estamos perante caraterísticas do blockchain e das transações em que este tem maior aplicabilidade. É motivo de reflexão se o desenvolvimento de um blockchain do setor da água e saneamento não iria tornar ainda mais público e confiável, ao regulador, aos clientes e à generalidade dos stakeholders, os resultados dos indicadores de qualidade de serviço, entenda-se desde a qualidade da água, às ocorrências de falhas no abastecimento (infraestruturas), ao nível de satisfação dos clientes, às eficiências internas e por aí adiante.

 

Parece-me que o Blockchain poderá ter impacto nas organizações do setor, julgando ser interessante elaborar uma análise mais profunda e robusta sobre o tema e respetivas implicações. Está lançado o desafio…e um nome: ABC – Aqua Blockchain!

 

Nuno Medeiros tem o MBA em Gestão e Marketing e 21 anos de experiência no setor da Água. Integra a EPAL desde 1995. Ao longo do seu percurso profissional passou pela Manutenção, Gestão de Clientes e área Laboratorial. Foi gestor do projeto de mobility nas atividades de Meter Reading e Field Services, tendo até 2008 implementado projetos de Smart Metering. Atualmente na área de Investigação, Inovação e Desenvolvimento da EPAL, focaliza-se na componente de produtos, serviços e processos.

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