Colunista Nuno Medeiros (Água-Tecnologia): A incorporação Big Data e Analytics no setor da água

01.06.2017

A existência de dados em volume considerável é inerente à atividade de gerir serviços urbanos de água, quer devido à quantidade de ativos a operar, como decorre igualmente das características específicas, e por vezes únicas, do negócio, relacionadas com o número de clientes e dos atributos agregados aos mesmos. Por outro lado, o desenvolvimento tecnológico da sensorização, maior alcance técnico e menor custo, bem como as mudanças tecnológicas ao nível das comunicações, Narrow Band 5G, estão a promover ou potenciam um acréscimo exponencial do volume de dados recolhidos pelas organizações.

 

Em virtude da terminologia poder ser interpretada de forma aligeirada, é importante salientar que o Big Data é muito mais do que um simples armazenamento de grandes volumes de dados. À propriedade de Volume tem necessariamente de se acrescentar a Variedade dos dados e a Velocidade de processamento destes. Alguns autores adicionam ao 3V que caracteriza o Big Data, Volume, Variedade e Velocidade, um 4VVexing complexity[1].

 

Com o Big Data, os gestores de topo e os decisores passam a ter disponível mais informação, com maior rigor, de maior especificidade e complexidade, facilitando a antecipação, de forma preditiva, de ocorrências, comportamentos e, consequentemente, permitindo definir movimentos estratégicos que deverão de imediato endereçar à organização. Assim, a perceção pela Liderança da Empresa da importância do Big Data para o negócio é fundamental, sendo essencial incorporar competências nos gestores e decisores para se sentirem confortáveis com o tema Big Data e para trabalharem, nos diferentes níveis de responsabilidades, com esta poderosa ferramenta. Transformar a organização para permitir a que a mesma embeba estas novas ferramentas faz igualmente parte de uma correta incorporação do Big Data e da Analytics, sendo essencial o ganho de competências adequadas, sendo que estas são normalmente escassas nas entidades atuais que gerem serviços urbanos de água, o que se revela um desafio a ultrapassar.

 

Se o capacitar a organização para a coleta de dados é essencial, também o é endereçar o foco da analítica no conjunto de dados que podem criar mais valor para a organização, sejam estes nas áreas mais operacionais, comerciais ou de suporte. Dados massivos de consumos por segmentos horários, por geografias, por atividade económica, relacionados com os dados das redes sociais, do CRM, entre outros, permitem tornar ainda mais eficiente a relação com os clientes e aproximar da expetativas destes a prestação do serviço global (distribuição de água e, por exemplo, a experiência do cliente na relação com a entidade). Na componente operacional, a capacidade do Big Data e da analítica vão dar contribuições relevantes na operação, manutenção e suporte do serviço urbano de água, promovendo a evolução da atividade preditiva nas várias vertentes, a qual irá se traduzir em ganhos de eficiência na exploração dos sistemas.

 

Em resumo o Big Data e a Analytics são temas e ferramentas disponíveis para, conjuntamente com outras tecnologias e metodologias, as entidades gestoras dos serviços urbanos de água utilizarem para a obtenção de mais valor. A (a) visão e conhecimento pela Liderança sobre o tema é premissa obrigatória. O (b) foco nos dados é imperativo e a correta visão do negócio é essencial, mas não é suficiente. (c) Novas competências e conhecimento têm de ser adquiridos, quer na área da Analytics como da Data Science, permitindo assim alcançar resultados de forma mais rápida, com rigor e minimizando o risco da reduzida robustez e qualidade da informação transmitida aos decisores. Por último, para obter dados a sensorização é fundamental, dando assim maior relevo ao tema da IoT. Refira-se que devemos analisar estes temas de forma holística e relacional, pois só a visão do conjunto nos permite interpretar corretamente a transformação digital em curso e aplicável ao setor da água.

 

Nuno Medeiros tem o MBA em Gestão e Marketing e 21 anos de experiência no setor da Água. Integra a EPAL desde 1995. Ao longo do seu percurso profissional passou pela Manutenção, Gestão de Clientes e área Laboratorial. Foi gestor do projeto de mobility nas atividades de Meter Reading e Field Services, tendo até 2008 implementado projetos de Smart Metering. Atualmente na área de Investigação, Inovação e Desenvolvimento da EPAL, focaliza-se na componente de produtos, serviços e processos.

 

[1] Big Data Overview, Miguel Godinho de Matos, Digital Transformation – Reinventar as Empresas na Era Digital, 4.ª Edição, Universidade Católica Portuguesa, Abril de 2017

TAGS: Opinião , Nuno Medeiros , água , tecnologia
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