Colunista Pedro Perdigão (Água-Tecnologia): I&D e Inovação. Empresas e Entidades Gestoras

16.12.2019

Que me perdoem aqueles que os dominam, mas não consigo deixar de começar por acertar 3 conceitos que vejo, com frequência, misturados: Investigação, Desenvolvimento (I&D) e Inovação (I).

 

Pode parecer que sempre aí estiveram, mas, de facto, é em 2005, com a terceira edição do Manual de Oslo (OCDE), que aparece uma descrição individualizada de cada um daqueles conceitos e fica claro, não apenas as diferenças entre eles, como a forma como compõem um processo no qual são sequenciais.

 

Então. De montante para jusante. O processo começa com a Investigação porque é aqui onde se procuram (e, às vezes, se encontram) conhecimentos novos, quer tenham (aplicada), ou não (fundamental), relação conhecida com qualquer produto ou processo empresarial. É, por inerência, a etapa onde o investimento acarreta maior incerteza e, com grande probabilidade, não terá retorno. Por vezes, a partir dos novos conhecimentos que a Investigação proporcionou, conseguimos criar novos (ou melhorados) materiais, produtos, processos, modelos de negócio ou organizacionais, e, assim, entramos na fase seguinte - o Desenvolvimento. 

 

Assim, à Inovação resta a mera implementação dos resultados do I&D esperando-se que, nesta área, o investimento apresente graus de incerteza similares aos de qualquer outro.

 

Dito de outra forma, se no I&D estamos a pôr valor para obter conhecimento e tecnologia, na Inovação já se espera que usemos esse conhecimento para obter valor. Se não retiramos valor então não é Inovação é um mau investimento.

 

Ficando clara a diferença entre o risco e a incerteza do I&D e da Inovação, parece razoável concluir-se que o perfil das organizações que devem investir em cada uma das áreas é bastante distinto. Diria eu que o I&D cabe a universidades e/ou algumas empresas com apetência elevada pelo risco, mas não a Entidades Gestoras das quais, dado o modelo de cost plus em que determinam as suas tarifas, se espera uma grande aversão ao risco.

 

Das Entidades Gestoras espera-se, sim, que cumpram o seu papel de consumir I&D, ou seja, utilizar (não desenvolvendo) novos materiais, produtos, processos, modelos de negócio ou organizacionais, deixando o investimento em I&D a quem de direito.

 

Como em qualquer cadeia de fornecimento este processo será mais Lean se a produção (I&D) for baseada no consumo (Inovação) e não para stock. Infelizmente o que tenho visto neste setor são Entidades Gestoras que não cumprem o papel de Inovar e outras que se aventuram no I&D produzindo para stock e, mais tarde, abate.

 

Após a licenciatura em Civil, Pedro Perdigão concluiu o mestrado em Estruturas e foi professor na Faculdade de Engenharia da UP. Tem funções técnicas ou de gestão no setor do abastecimento de água, desde 1996, ano em que iniciou a sua carreira profissional na Águas do Douro e Paiva. Em 2007 saiu do setor para Diretor da Habiserve (grupo de promoção imobiliária) onde foi responsável pelos departamentos de Gestão de Negócio, Sistemas de Informação e Pós-Venda, assim como, Diretor Executivo da empresa de importação de materiais desse grupo - Imperbor. De 2008 a 2009 foi Diretor Geral da Tgeotecnia, SA, empresa do grupo DST para obras de geotecnia. Em 2009 regressou ao setor como Diretor Geral da Águas de Gondomar. Ainda no mesmo grupo, de 2011 a 2016, assumiu as funções de Diretor Geral da Águas de Cascais Atualmente é Administrador no grupo Indaqua, com responsabilidade nas operações das suas empresas que, só em Portugal, asseguram o abastecimento de água e saneamento a mais de 600.000 habitantes. Para além de assumir funções nas concessões (Fafe, Matosinhos, Oliveira de Azeméis, Santa Maria da Feira, Santo Tirso, Trofa e Vila do Conde) é ainda gerente na empresa de Operação e Manutenção do grupo (Aqualevel) e administrador na Águas de São João da Madeira. É professor no Mestrado de Economia e Gestão Ambiental na Faculdade de Economia da UP.

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