Colunista Hernâni Theias (Água-Tendências): Com merda até ao pescoço

A necessidade é a mãe da invenção

14.01.2020

Se o título deste artigo lhe parece chocante, o que pensará da realidade de mais de 182.000* indianos que se dedicam diariamente a uma das atividades mais degradantes imagináveis e que consiste na remoção à mão de excrementos em esgotos, latrinas e fossas sépticas?

 

Sem qualquer equipamento de proteção, indivíduos descem para dentro de espaços confinados afim de retirar todo tipo de imundices, expondo-se a um florilégio de doenças (cólera, hepatite, meningite, febre tifoide, etc.) e ao risco de uma morte imediata por intoxicação com ácido sulfídrico (não existem dados oficias, mas estima-se que várias centenas de pessoas falecem cada ano no exercício deste miserável ofício) sacrificando o seu corpo e a sua dignidade para o bem comum.

 

O problema é de tal ordem que esta atividade tem nome próprio, “manual scavenging”, literalmente “vasculho manual”, levando à promulgação de duas leis que a proíbem, a primeira de 1993, e foi considerada uma violação dos direitos humanos pelo tribunal supremo indiano em 2014. Lamentavelmente, continua a existir porque, por uma parte, responde a uma necessidade coletiva – a prevalência de latrinas secas e redes de esgoto saturadas obriga a constantes intervenções de contingência – e individual porque é uma fonte de rendimento para muitas famílias.

 

Mas há outra razão de fundo pela qual a profissão de “vasculhador” não tem os dias contados. E é uma razão técnica: os meios de limpeza convencionais (por jato hidráulico e aspiração), amplamente usados nas nossas latitudes, revelam-se inúteis. A quantidade e o tipo de escombros que entopem caixas de visitas e coletores impede muitas vezes a introdução de mangueiras, impossibilitando as tarefas de limpeza e inspeção. Por outra parte, o desconhecimento do cadastro das redes dificulta a definição de uma estratégia de limpeza, chegando a ser impossível distinguir jusante de montante.

 

A limpeza manual, em determinadas situações, não tem concorrência; só não tem que ser perigosa e ineficiente. E é também usada por aqui, originando iniciativas de “operador conectado” que reunem um conjunto de equipamentos de segurança (roupas de proteção, detectores de gases, iluminação, sistemas de alertas...) e de apoio (câmeras, instrumentos de medição e registro de dados) que interagem e comunicam, suportados pela Internet das Coisas (IoT).

 

Com o apoio do governo indiano, têm surgido respostas muito interessantes a este problema, no espírito das “tecnologias adequadas” (“appropriate tecnology”), uma expressão hoje em desuso que se refere a um movimento que promovia nos anos 70 o desenvolvimento de tecnologias adequadas a um determinado contexto social, cultural e econômico, e cujo pai espiritual é considerado, por muitos, o próprio Mahatma Gandhi: robôs de limpeza para caixas de visita, trituradores com câmara integrada, camiões de pequenas dimensões com jato de alta pressão, equipamentos pensados para a India e para acabar com um flagelo humano, mas que algum dia nos poderão servir a todos nos quatro cantos do mundo.

 

* Dados oficiais do censo de 2011. Outras fontes apontam para números muito superiores, da ordem de 800 mil.

 

 

Hernâni Theias é engenheiro civil de formação e está dedicado desde sempre à área da água e saneamento. Colabora em projetos em quatro continentes. Atualmente é director de desenvolvimento de negócios na Suez e é responsável pela divisão global de serviços para redes.

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