Comentário Jaime Melo Baptista (Água): Jogar com palavras para transmitir mensagens importantes

30.04.2018

O Processo Regional Europeu, integrado no Fórum Mundial da Água 2018, foi coordenado por Portugal e envolveu 52 países. Como resultado foi elaborado o Relatório Regional Europeu e foram organizadas seis sessões técnicas sobre a região Europa, todas com nomes que se procuraram apelativos e autoexplicativos, traduzindo só por si mensagens importantes. Vale a pena revisitá-las.

 

A sessão “Governança da Água na Europa: como adicionar valor, bloco a bloco?” alertou para o papel essencial da governança dos recursos hídricos e para a multidisciplinaridade de componentes que é necessário gerir, nomeadamente estratégicas, institucionais, legais, económicas, técnicas e sociais.

 

A sessão “Serviços de água na Europa: sustentabilidade a longo prazo, a que preço?” pretendeu alertar para o facto de as infraestruturas existentes na Europa não bastarem para assegurar que os serviços se mantenham adequados a longo prazo. É necessário fazer uma boa gestão patrimonial, nomeadamente gerando receitas que permitam a modernização contínua das mesmas, evitando a sua degradação resultante do envelhecimento.

 

A sessão “Cidades europeias: porque desperdiçar água e energia?” quis chamar a atenção para a baixa eficiência de utilização da água e da energia nas nossas cidades, nomeadamente com as tradicionais perdas elevadas na rede e baixa eficiência energética, e para o papel que a economia circular pode ter no reaproveitamento de água, produtos e energia dentro do ciclo urbano.

 

A sessão “Ecossistemas europeus: como fazer a ponte entre sistemas e serviços?” veio lembrar a importância de restaurar e proteger os ecossistemas hídricos e a necessidade de desenvolver serviços ambientais que, sem prejudicarem esses ecossistemas, possam ajudar à sua sustentabilidade e valorização.

 

A sessão “Água e alterações climáticas na Europa: a ponta do iceberg?” veio questionar se teremos já a perceção do verdadeiro impacte das alterações climáticas nos recursos hídricos, ou se ele será ainda mais gravoso e nos obrigará a medidas de adaptação ainda mais complexas.

 

A sessão “Financiamento da água na Europa: como obtê-lo e combiná-lo?” abordou a importância do financiamento neste setor, que é de capital intensivo, e a necessidade de ter políticas públicas consistentes e projetos bem estruturados que atraiam mais facilmente instrumentos financeiros diversificados.

 

Em síntese, seis frases que são mensagens fortes e traduzem os maiores desafios da água que temos pela frente na Europa.

 

Jaime Melo Baptista, engenheiro civil especializado em engenharia sanitária, é Investigador-Coordenador do LNEC, Coordenador do projeto Lisbon International Centre for Water (LIS-Water), Presidente do Conselho Estratégico da PPA e Comissário de Portugal ao 8.º Fórum Mundial da Água 2018 em Brasília. Foi membro do conselho de administração e do conselho estratégico da IWA. Foi presidente da ERSAR (2003-2015), responsável pelo Departamento de Hidráulica (1990-2000) e pelo Núcleo de Hidráulica Sanitária (1980-1989) do LNEC, diretor da revista Ambiente 21 (2001-2003) e consultor. Foi distinguido com o IWA Award for Outstanding Contribution to Water Management and Science.

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