Comentário Jaime Melo Baptista: O que tem a água a ver com os mísseis?

16.04.2018

Juntamente com o petróleo, a água é o mais estratégico dos recursos, mas, ao contrário do primeiro, não possui formas alternativas, sendo absolutamente fundamental para o funcionamento das sociedades. Há que dar mais atenção às mensagens de preocupação das principais organizações internacionais neste domínio.

 

A água é vista, num número crescente de países, como um recurso estratégico face à sua reduzida disponibilidade e deficiente alocação em diversos locais e regiões. Por isso, muitos conflitos têm vindo a acontecer que envolvem a sua posse e controle, e muitos outros estão para vir, estando frequentemente presente uma aspiração a maior poder regional através da água. É aí que podem surgir os mísseis. Para além dos conflitos locais e regionais e de atos de terrorismo, existem conflitos internacionais mais generalizados e graves. Vejamos alguns casos.

 

O conflito entre Israel e Palestina é o mais emblemático dos conflitos regionais da água. O Estado de Israel foi fundado com o sonho de fazer o deserto florescer e para isso desviou há meio século parte do rio Jordão para o deserto de Negev através do National Water Carrier. O Mar morto perdeu um terço da sua área superficial e o Rio Jordão perdeu caudal. Além disso Israel mantém a ocupação das nascentes do Rio Jordão nos montes Golan conquistados à Síria em 1967. Israel, Jordânia e Palestina reúnem 5% da população mundial e apenas 1% das reservas hídricas e a Palestinian Water Authority afirma que Israel consome sete vezes mais água per capita do que a Palestina. É interessante ver que o investimento estratégico de Israel em dessalinização vem no sentido da mitigação das tensões na região.

 

Outro conflito é o que envolve Turquia, Síria e Iraque. Os Rios Eufrates e Tigre nascem na Turquia e atravessam a Síria e o Iraque. A Turquia tem vindo a construir um conjunto de barragens para reter a água no seu território, o Southeastern Anatolia Project. Quando estiver concluído vai reter metade do volume de água na Turquia. Acrescenta-se a isso que os agricultores de algodão da Síria também usam grandes quantidades de água. O nível da água no Lago Assad na Síria já baixou cerca de 6 metros. Prevê-se que a extração de água vai impedir que esta chegue à foz dos rios.

 

O conflito entre Egito, Etiópia, Uganda e Sudão na bacia do Rio Nilo é uma disputa pela utilização da água, que pode transformar-se num conflito generalizado. A Etiópia está a construir no Nilo Azul junto à sua fronteira a maior barragem de África, a Grand Ethiopian Renaissance Dam. O Egipto, cujo desenvolvimento depende desde sempre do Rio Nilo, tem-se oposto violentamente a esta construção e ameaça com uma intervenção militar.

 

Um último exemplo, agora de um conflito local. A revolução na Síria contra o atual presidente começou quando jovens da cidade de Daraa fizeram graffitis de protesto contra a gestão considerada corrupta da água feita pelo governo local. A prisão e tortura desses jovens levaram ao levantamento das tribos de onde eles provinham.

 

Não pretendo aqui fazer qualquer juízo de valor sobre as posições políticas à volta destes casos, nem atribuir estes conflitos exclusivamente à água. Pretendo apenas chamar a atenção para as consequências da escassez da água ou da sua deficiente partilha e o impacto que ela tem na paz e segurança regional e mundial.

 

É pois essencial uma ação conjunta internacional para evitar a escassez de água em várias partes do mundo, bem como a implementação de medidas e acordos que garantam a sua suficiência em quantidade e qualidade, uma melhor distribuição e a maior resiliência dos sistemas. Para que a água tenha cada vez menos a ver com os mísseis.

 

Jaime Melo Baptista, engenheiro civil especializado em engenharia sanitária, é Investigador-Coordenador do LNEC, Coordenador do projeto Lisbon International Centre for Water (LIS-Water), Presidente do Conselho Estratégico da PPA e Comissário de Portugal ao 8.º Fórum Mundial da Água 2018 em Brasília. Foi membro do conselho de administração e do conselho estratégico da IWA. Foi presidente da ERSAR (2003-2015), responsável pelo Departamento de Hidráulica (1990-2000) e pelo Núcleo de Hidráulica Sanitária (1980-1989) do LNEC, diretor da revista Ambiente 21 (2001-2003) e consultor. Foi distinguido com o IWA Award for Outstanding Contribution to Water Management and Science.

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