Comentário Paulo Carmona (Energia): Gás Natural? “É a tarifa, estúpido…” (*)

06.02.2019

Questão Ambiente Online: A REN vai investir 55 milhões de Euros no gás natural, entre gasodutos, terminal de Sines e armazenamento. Prevê ainda 139 M€ para um terceiro gasoduto a ligar a Espanha. Justifica-se esta aposta no Gás natural tendo em conta os objetivos de descarbonização?

 

A aposta na descarbonização é gradual e sem situações de ruptura. Mesmo os mais optimistas reconhecem que as fontes de energia fóssil no mundo ainda contarão 65% na origem da produção energética, especialmente nos transportes, em 2030.

 

Ou seja, não se aposta na descarbonização suprimindo a oferta de combustíveis fósseis. Isso só traria miséria e pobreza para as populações que se viam privadas de abastecimento energético fóssil, quando e onde as renováveis ainda são caras ou de difícil acesso.

 

A aposta passa por mudar lentamente o paradigma, não pondo em causa os investimentos já feitos, nem a existência das alternativas fósseis necessárias para quando não exista sol ou vento. A eficiência energética é um vector importante, nomeadamente nos transportes e enquanto veículo elétrico vai ocupando o seu espaço lentamente, promovendo a utilização das ferrovias, navios, oleodutos e biocombustíveis. Assim, qualquer investimento que traga maior eficiência e menores custos na utilização de gás natural é em claro benefício para os consumidores, durante este tempo de transição energética que se prevê longo, infelizmente.

 

Quando a REN investe em gasodutos, armazenagem e infraestruturas de gás natural, isso são boas notícias para os consumidores, excepto quando esses investimentos tragam um aumento da tarifa. Ora é disso que se trata quando falamos de uma terceira ligação a Espanha,

 

A terceira ligação de gasodutos transfronteiriços com Espanha, Celorico da Beira/Zamora, uma obra avaliada em 139 milhões de euros, a ser construída seria para pagar por todos nós através dum aumento das tarifas do gás. E qual a razão para esse investimento? São principalmente duas:

  • Solidariedade nacional com o desenvolvimento do interior, Trás-os-Montes e Beira Interior, baixando o custo de acesso ao gás natural por parte dessas populações, então servidas por oleodutos;

  • Potenciar o terminal de Sines para receção de gás natural e sua exportação para a Europa, melhorando a sua independência energética face ao gás russo;

 

São argumentos que ficam bem no papel, não fosse a repercussão no custo na nossa factura de gás, já de si uma das mais altas da Europa. Contra eles argumentos justificativos do custo, levantam-se os seguintes:

  • E o Algarve? É uma zona de consumo elevado que tem todo o direito, à semelhança de Trás-os-Montes, de ter acesso directo a um gasoduto. Pela elementar justiça teríamos mais um investimento solidário, com mais sobrecarga na tarifa de todos. Estamos a falar de regiões que só por si não têm consumos suficientes que justifiquem e paguem a utilização do gasoduto, tendo os consumidores do litoral chamados ao dever solidário. Fará sentido? Se é para desenvolver o interior que se utilizem fundos de coesão ou financiamentos de fomento territorial e não se leve à tarifa… seria mais claro, se fosse esse o objectivo politico;

  • Se é para melhorar a independência energética europeia, difícil de justificar dado que Espanha tem já sete terminais marítimos de GNL,e França outros quatro, deixem que a Europa pague a factura dessa independência. Se é apenas para tirar vantagens económicas da exportação para Espanha, no limite que sejam os que usufruem dessas vantagens que façam o investimento. E é de um grande optimismo… desde que se inaugurou o terminal GNL de Sines em 2004, só recentemente tivemos um dia que exportámos GNL para Espanha a partir de Campo Maior, com a ajuda da recente vaga de frio. Como é que com mais uma ligação exportaríamos mais, paga por todos, se com duas pouco ou nada exportamos? Se já era difícil exportar para Espanha, agora com o enterro definitivo da ligação transpirenaica ficou impossível exportar para a Europa. Que nem necessita, basta ver o movimento dos grandes metaneiros em Dunquerque, Zeebrugge ou Roterdão.

 

É legitimo que a REN queira esses investimentos. É uma expansão natural do seu negócio. Fosse eu responsável pela REN lutaria por eles, mas como sou um simples consumidor de gás tenho de usar muita cautela e parcimónia quando me aumentam a factura do consumo, mesmo com a melhor das intenções…

 

(*) “É a economia, estúpido…” - Bill Clinton nas eleições de 1994

 

Paulo Carmona, Licenciado em Gestão pela Universidade Católica de Lisboa, é consultor e administrador em empresas de energia nacionais e internacionais, membro da direção da Ordem dos Economistas e diretor executivo do think-tank Missão Crescimento. Foi Presidente da ENMC, Entidade Nacional para o Mercado de Combustíveis (2013-2016), administrador na Martifer, CEO da Prio Bio (2006-2009), secretário-geral da APPB (2009-2013), consultor e gestor de fundos de investimento na área da energia (2002-2009), Chairman da ACOMES, professor universitário especialista em mercados de energia e matérias-primas (1999-2014), diretor da Executive Digest (2003-2013).

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