Comentário Rui Berkemeier (Resíduos): Gases de refrigeração são indicador sobre gestão dos REEE

20.09.2018

A confirmação de que mais de 90% dos gases de refrigeração contidos em equipamentos de frio se perderam para a atmosfera em 2017 é um indicador muito preocupante sobre o estado da gestão dos resíduos de equipamentos elétricos e eletrónicos (REEE), uma vez que demonstra que a grande maioria dos equipamentos de frio não chega aos operadores licenciados para o seu tratamento e mesmo muitos dos que chegam vêm vandalizados, tendo já perdido parte dos gases.

 

Estes gases, como se sabe, são causadores da destruição da camada de ozono e provocam alterações climáticas, pelo que a sua recolha e tratamento são fundamentais para a preservação do nosso planeta.

 

E o que fazer para alterar este cenário?

 

Em primeiro lugar, as entidades gestoras dos REEE têm de investir muito mais nos sistemas de recolha dos equipamentos de frio de forma a que estes resíduos possam chegar em quantidade e qualidade às unidades de tratamento.

 

Esse investimento tem de se traduzir num apoio financeiro que incentive as boas práticas, por exemplo, nos sistemas camarários de recolha de resíduos urbanos ou nas empresas que fazem a gestão de resíduos metálicos.

 

Em segundo lugar, é fundamental que a IGAMAOT, com o apoio das CCDR e do SEPNA, crie um programa de inspeção/fiscalização às empresas que recebem resíduos metálicos, destino da grande maioria dos equipamentos de frio.

 

Estamos a falar em ações junto dos principais fragmentadores de veículos em fim de vida que também recebem lotes de sucata metálica, onde se podem encontrar resíduos metálicos de frigoríficos. Com estas ações vais ser possível identificar as empresas que são receptoras de equipamentos de frio apesar de não estarem licenciadas para o fazer.

 

Em resumo, enquanto o mercado paralelo oferecer melhores contrapartidas financeiras e a fiscalização não atuar junto dos grandes recetores de resíduos metálicos, o panorama detetado em 2017, 2016 e nos anos anteriores não vai ser alterado.

 

Rui Berkemeier é Engenheiro do Ambiente licenciado pela FCT/UNL. Foi Técnico Superior da Direção de Serviços de Hidráulica do Sul em Évora (1988-1992), na área de Controle da poluição hídrica e extracção de inertes, e Chefe de Setor de Ambiente da CM das Ilhas em Macau (1992-1996) na Gestão de Resíduos e Educação Ambiental. Desempenhou as funções de Coordenador do Centro de Informação de Resíduos da Quercus de 1996 a 2016 acompanhando as políticas nacionais de gestão de resíduos. Atualmente é técnico especialista na Zero – Associação Sistema Terrestre Sustentável.

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