Comentário Rui Berkemeier (Resíduos): O mistério dos frigoríficos desaparecidos

06.11.2017

Soubemos recentemente que apenas um em cada quatro equipamentos de frio (frigoríficos, similares e equipamentos de ar condicionado) são encaminhados para descontaminação e reciclagem em unidades licenciadas para o efeito.

 

Em concreto, em 2016 foram encaminhadas para tratamento adequado 7.461 toneladas desses equipamentos, enquanto que segundo a ANREEE a média desses equipamentos colocados no mercado entre 2013 e 2015 foi de 31.354 toneladas.

 

A agravar esta situação há o facto de cerca de 45% dos frigoríficos chegarem à unidades de descontaminação já sem o compressor, ou seja, tendo já perdido parte importante dos gases de refrigeração que entretanto se libertaram para a atmosfera constituindo um fator de destruição da camada de ozono ou de criação de efeito de estufa.

 

Desta conjugação de fatores resulta que em 2016 terão sido tratados apenas cerca de 10% dos gases de refrigeração existentes nos equipamentos de frio que chegaram ao fim de vida.

 

A causa desta situação deve-se em grande parte à existência de sistemas de recolha muito deficientes ao nível das autarquias que permitem a ocorrência de circuitos paralelos de recolha destes equipamentos e seu encaminhamento para operadores não licenciados. Esta falta de controlo origina ainda situações em que os frigoríficos são recolhidos pela autarquia, mas a certa altura do processo alguém lhes rouba o compressor e assim, quando chegam às unidades de tratamento, já se perdeu para a atmosfera uma parte importante dos gases de refrigeração.

 

Mas se os equipamentos de refrigeração são desviados dos operadores licenciados, para onde é que vão afinal? A resposta só pode ser uma: vão para os grandes operadores de resíduos metálicos que acabam por atuar como recetores finais destes resíduos, apesar de não estarem preparados tecnicamente para procederem à remoção dos gases neles contidos.

 

Para ultrapassar esta situação impõe-se a realização de um trabalho de sensibilização, formação e fiscalização dos processos de recolha destes resíduos ao nível das autarquias de forma a se alterarem velhos hábitos que seguramente muito ajudam a explicar a situação atual.

 

Por outro lado, tem que se atuar no destino final - as empresas de processamento de metais - utilizando exatamente os mesmos princípios (sensibilização, formação e fiscalização) de forma a alterar radicalmente este inaceitável paradigma da gestão destes equipamentos.

 

Mas para fazer isto de forma integrada há que envolver as entidades gestoras dos REEE, a APA, a IGAMAOT, o SEPNA, as CCDR, as autarquias e as associações empresariais ligadas ao setor do processamento de resíduos metálicos. A questão é saber quem é que vai dar o pontapé de saída (talvez a ordem com que esta lista está ordenada possa ajudar a responder a esta questão).

 

Rui Berkemeier é Engenheiro do Ambiente licenciado pela FCT/UNL. Foi Técnico Superior da Direção de Serviços de Hidráulica do Sul em Évora (1988-1992), na área de Controle da poluição hídrica e extracção de inertes, e Chefe de Setor de Ambiente da CM das Ilhas em Macau (1992-1996) na Gestão de Resíduos e Educação Ambiental. Desempenhou as funções de Coordenador do Centro de Informação de Resíduos da Quercus de 1996 a 2016 acompanhando as políticas nacionais de gestão de resíduos. Atualmente é técnico especialista na Zero – Associação Sistema Terrestre Sustentável.

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