Comentário Rui Berkemeier (Resíduos): O tratamento de pequenos REEE em fragmentadores de VFV

29.01.2018

Portugal dotou-se de diversas unidades industriais visando a descontaminação e a maximização da preparação para a reciclagem das diversas componentes dos Resíduos de Equipamentos Elétricos e Eletrónicos (REEE), existindo unidades especializadas para cada tipo de resíduos, tais como equipamentos de frio, lâmpadas com mercúrio, monitores ou pequenos REEE (fluxo C).

 

O tratamento adequado destes resíduos obriga à instalação de equipamentos sofisticados e com elevado investimento de forma a garantir o cumprimento dos objetivos ambientais.

 

Até aqui tudo bem, o problema é que as entidades gestoras dos REEE iniciaram há algum tempo, a contar para as suas metas do fluxo C, o encaminhamento de resíduos para empresas que não estão vocacionadas para o seu tratamento nas melhores condições que a tecnologia atualmente permite, nomeadamente as unidades de fragmentação de Veículos em Fim de Vida.

 

Isto, apesar do Unilex (DL nº152-D/2017) definir expressamente, no ponto 1, alínea z) do Artigo 3º, a fragmentação apenas como uma “operação de corte e retalhamento de VFV”.

 

A fragmentação, segundo o Unilex, não será pois a operação mais adequada para tratamento do fluxo C. E isso percebe-se facilmente, uma vez que as unidades de fragmentação de VFV estão preparadas para processar VFV com pesos da ordem de uma tonelada, não estando por isso naturalmente preparadas para processar da forma mais eficiente resíduos como os do fluxo C que pesam muitas vezes menos de 1 quilograma, têm diversas componentes perigosas e podem ter mais plástico do que metal.

 

É pois evidente que a contabilização para as metas das duas entidades gestoras de REEE dos resíduos do fluxo C enviados para fragmentadores não será a melhor opção ambiental, quando o país já está dotado de outras unidades que estão especializadas no processamento destes resíduos.

 

Com efeito, será muito difícil um fragmentador atingir os resultados em termos de remoção de contaminantes e de taxa de reciclagem que se conseguem no âmbito da certificação Weeelabex em unidades especializadas em tratar este tipo de resíduos.

 

A título de exemplo, numa operação de certificação de um operador especializado em tratar o fluxo C, a triagem manual permitiu a separação dos seguintes tipos de resíduos: CRT, lâmpadas, CD's, difusores, cristais líquidos, pilhas, tinteiros, toners, motores, fichas, mistura de metais, placas de circuitos impressos, fontes de alimentação, plástico e cabos.

 

Os resultados globais demonstraram que se conseguiu o encaminhamento de cerca de 85% dos materiais para reciclagem, dos quais 18% eram plástico, o que aparentemente não é possível fazer num fragmentador, pelo que tudo indica que seria vantajoso para o ambiente que as duas entidades gestoras de REEE apenas contabilizassem para as suas metas os resíduos do fluxo C tratados em unidades criadas especificamente para o efeito, promovendo desta forma o melhor encaminhamento possível para esses resíduos.

 

Seria pois importante que o Ministério do Ambiente exigisse às entidades gestoras dos REEE que dessem prioridade ao encaminhamento destes resíduos para aqueles operadores que melhor sabem proceder à sua descontaminação e mais materiais conseguem extrair para posterior reciclagem.

 

Rui Berkemeier é Engenheiro do Ambiente licenciado pela FCT/UNL. Foi Técnico Superior da Direção de Serviços de Hidráulica do Sul em Évora (1988-1992), na área de Controle da poluição hídrica e extracção de inertes, e Chefe de Setor de Ambiente da CM das Ilhas em Macau (1992-1996) na Gestão de Resíduos e Educação Ambiental. Desempenhou as funções de Coordenador do Centro de Informação de Resíduos da Quercus de 1996 a 2016 acompanhando as políticas nacionais de gestão de resíduos. Atualmente é técnico especialista na Zero – Associação Sistema Terrestre Sustentável.

VOLTAR