Comentário Rui Berkemeier (Resíduos): Reciclagem bipolar nos Açores

24.09.2019

A Região Autónoma dos Açores apresenta um comportamento bipolar em termos de reciclagem de resíduos urbanos que a torna um caso de estudo muito interessante.

 

Assim, segundo dados da Direção Regional de Ambiente referentes a 2018, enquanto que as duas maiores ilhas deste arquipélago apenas atingem taxas de reciclagem da ordem dos 30%, todas as restantes 7 ilhas já ultrapassaram os 80%!

 

Com efeito, o pior desempenho acontece em S. Miguel que apenas reciclou 28,7% e o segundo pior na Terceira que pouco mais conseguiu (33%).

 

Já nas restantes 7 ilhas a taxa de reciclagem mais elevada foi atingida na Flores com 83,6%, enquanto que a mais “baixa” foi no Pico com 80,3%.

 

Perguntar-se-á: por que razão há uma diferença tão grande de comportamentos em ilhas do mesmo arquipélago?

 

As razões poderão efetivamente ser muitas, mas há algumas que são evidentes e têm muito a ver com as opções de tratamento dos resíduos urbanos.

 

No caso da ilha Terceira foi instalada uma unidade de incineração com capacidade excedentária, o que obriga inclusivamente à remoção de resíduos colocados no aterro para manter todo o incinerador a funcionar. Evidentemente que, nestas condições, um eventual aumento da reciclagem entraria claramente em conflito com o objetivo de viabilizar economicamente o incinerador.

 

Já em S. Miguel existe um projeto de instalar um grande incinerador, pelo que aqui também poderá não haver muito interesse em aumentar significativamente a reciclagem, para não colocar em risco todo o projeto de incineração.

 

Nas restantes 7 ilhas, pelo contrário, como não havia a hipótese de colocar incineradores, avançou-se em muitos dos casos para a recolha seletiva porta-a-porta complementada pela instalação de unidades de Tratamento Mecânico e Biológico (TMB). Ou seja, o que não se conseguiu recolher seletivamente ainda pôde ser reciclado no TMB, obtendo-se assim uma maximização da reciclagem.

 

A conclusão óbvia que se retira do caso dos Açores é que se instalamos unidades de incineração ou pretendemos instalá-las então estamos a impedir um desenvolvimento sério da reciclagem.

 

Aliás, essa conclusão também é verdadeira para a Região Autónoma da Madeira e para o território do continente.

 

Rui Berkemeier é Engenheiro do Ambiente licenciado pela FCT/UNL. Foi Técnico Superior da Direção de Serviços de Hidráulica do Sul em Évora (1988-1992), na área de Controlo da poluição hídrica e extração de inertes, e Chefe de Setor de Ambiente da CM das Ilhas em Macau (1992-1996) na Gestão de Resíduos e Educação Ambiental. Desempenhou as funções de Coordenador do Centro de Informação de Resíduos da Quercus de 1996 a 2016 acompanhando as políticas nacionais de gestão de resíduos. Atualmente é técnico especialista na Zero – Associação Sistema Terrestre Sustentável.

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