No último Fórum dos Resíduos disseram-se muitas coisas, umas interessantes, outras nem tanto, mas das sessões a que pude assistir, retive estas três, que no mínimo são desconcertantes:
“- Há três possibilidades de gestão para os resíduos urbanos: o aterro, a incineração ou a exportação!”
Dito por um responsável de uma associação que representa os interesses da incineração e que se esqueceu, talvez por lapso, de referir a alternativa da reciclagem, para a qual a União Europeia nos convoca para enviarmos pelo menos 65% dos nossos resíduos urbanos.
Aliás, como ficou claramente provado neste Fórum, basta a Portugal cumprir as suas metas de reciclagem para automaticamente cumprir as metas de desvio de aterro.
Já agora, alguém explique a este senhor que os custos de exportação de resíduos urbanos seriam muito mais elevados do que os custos de os reciclar.
“- A incineração é uma energia renovável!”
Sabemos que uma inverdade (designação politicamente correta para uma mentira), quando dita várias vezes, corre o risco de passar por uma verdade. E foi isso o que aconteceu, com muitas pessoas a tentarem passar a mensagem de que a incineração seria uma energia renovável.
Ora como pode a incineração ser uma energia renovável, se, pela queima de muitos materiais sintéticos como plásticos e têxteis, gera uma emissão líquida de dióxido de carbono fóssil de 200 kg por tonelada incinerada?
E finalmente a cereja em cima do bolo:
“- É preciso que se diga e muita gente confunde, que provavelmente, a economia circular tem a ver com a gestão de resíduos urbanos, mas isso não é uma verdade...”
Afirmado pelo responsável de uma das maiores empresa de gestão de resíduos urbanos do país que vem assim virar do avesso todo o conceito que até agora tínhamos sobre a economia circular, uma vez que se a gestão dos resíduos não tem a ver com a economia circular, a reciclagem também nada tem a ver.
Agora, será necessário explicar aos cidadãos, às autarquias, às empresas de gestão de resíduos, às empresas de reciclagem, à APA e ao próprio Ministro do Ambiente que: separar os materiais para reciclar, como as embalagens, encaminhá-los para as estações de triagem e depois para os recicladores para a produção de novos produtos a partir dos resíduos, NÃO É ECONOMIA CIRCULAR!
Mas pensando melhor, se calhar percebi mal e, quem diz que a gestão dos resíduos urbanos nada tem a ver com a economia circular, se referia apenas às operações de colocação dos resíduos em aterro ou à incineração, duas operações claramente associadas à economia linear e não à circular.
Enfim, questões filosóficas...
Rui Berkemeier é Engenheiro do Ambiente licenciado pela FCT/UNL. Foi Técnico Superior da Direção de Serviços de Hidráulica do Sul em Évora (1988-1992), na área de Controlo da poluição hídrica e extração de inertes, e Chefe de Setor de Ambiente da CM das Ilhas em Macau (1992-1996) na Gestão de Resíduos e Educação Ambiental. Desempenhou as funções de Coordenador do Centro de Informação de Resíduos da Quercus de 1996 a 2016 acompanhando as políticas nacionais de gestão de resíduos. Atualmente é técnico especialista na Zero – Associação Sistema Terrestre Sustentável.


