Colunista convidado David Rua (Energia-Tecnologia): A interoperabilidade e os consumidores

27.11.2019

A redução da pegada carbónica no consumo de energia é atualmente abordada sobre diversas perspetivas. Por um lado, o recurso a medidas de eficiência energética e por outro a disseminação progressiva de geração renovável local são medidas essenciais à redução de emissões associadas ao consumo de energia em edifícios. Nesse contexto estão a ser desenvolvidas plataformas de gestão de energia (conhecidos na nomenclatura anglo-saxónica por “Energy Management Systems”[1]) cujo objetivo é permitir a utilização ótima dos recursos energéticos existentes (ex. cargas flexíveis, tais como sistemas de aquecimento elétricos, veículos elétricos, etc.)

 

A operação dessas plataformas assenta na conetividade e na capacidade de troca de informação entre os diferentes dispositivos e sistemas existentes e o seu utilizador final com o propósito de facilitar a exploração de novos serviços para a eficiência energética do lado da procura, quer para os edifícios quer para a rede elétrica.

 

Existem já diversas plataformas de automação, algumas abertas como é o caso do OpenHAB, cuja missão é assegurar a interligação entre uma plataforma de gestão e controlo local e dispositivos de diversos fabricantes. Há, contudo, um desafio latente que está associado. Apesar do esforço em assegurar o suporte a diferentes fabricantes através de desenvolvimentos estruturados e com a participação de comunidades de interessados e alguns fabricantes, ainda existem diversos desafios vencer. Estes são impostos por um lado pelo interesse reduzido dos mesmos fabricantes em apoiar estas plataformas abertas, e por outro lado pelo uso que fazem de soluções proprietárias e fechadas que dificultam o papel de tais plataformas e consequentemente da sua capacidade de integrarem diferentes dispositivos e sistemas.

 

É importante garantir que a aposta na gestão energética se centra em resolver os desafios da participação dos consumidores removendo as barreiras tecnológicas que ainda lhes estão associadas. Para tal é necessário garantir tecnologias interoperáveis evitando a criação de ecossistemas fechado ou restringindo a liberdade de escolha dos consumidores que têm que optar por soluções específicas de um único fabricante ou prescindir de funcionalidades quando se combinam soluções de fabricantes diferentes. A interoperabilidade semântica preconizada em standards como o SAREF (Smart Appliances REFerence ontology) é fundamental para a disseminação de soluções IoT e evitar entraves à inovação e à competitividade, por parte dos fabricante e integradores de tecnologia, para os provedores de serviços e, mais importante ainda, para os utilizadores finais de energia. Assim, tornar-se-á possível um compromisso mais forte noutras áreas, igualmente importantes, como é o caso da troca segura de informação e na proteção dos dados dos utilizadores através da sua inclusão no processo de design de equipamentos e serviços.

 

É possível aos fabricantes suportar a iniciativa da Comissão Europeia (2002/21/EC) na implementação de sistemas de comunicação e serviços eletrónicos interoperáveis e com isso disponibilizarem serviços em cooperação com outras entidades como os retalhistas de eletricidade e consequentemente aos operadores das redes elétricas inteligentes. Podem ainda assim fazer uso de mecanismos próprios para a troca de informação sensível e protegida, essencial ao seu modelo de negócio, nomeadamente para o suporte, assistência e garantia de operação técnica dos seus produtos.

 

O recurso a estratégias para a interoperabilidade é não só benéfico para o utilizador final, como para os próprios fabricantes, já que a facilidade em criar novos serviços e estabelecer novas parcerias com outras entidades é que permitirá assegurar vantagens mútuas que permitam o suporte sustentável ao uso mais eficiente da energia. A mobilidade elétrica é um dos vetores com maior impacto do lado do consumo e só através de sistemas interoperáveis é que se criam e se interligam serviços dinâmicos e diferenciados que os cidadãos poderão fazer uso no contexto de uma economia verdadeiramente verde.

 

Os próximos anos serão cruciais no cimentar destas estratégias, onde demonstrações e pilotos em larga escala, envolvendo fabricantes, integradores, associações, reguladores, operadores e agentes de mercado terão de contribuir para a implementação casos de uso com serviços desenhados para os diferentes tipos de utilizadores repartindo as vantagens pelas diferentes partes interessadas.

 

[1] Existem variantes deste conceito aplicáveis p.ex. a edifícios residências como os HEMS (Home Energy Management Systems) ou a edifícios como os BEMS (Building Energy Management Systems

 

David Rua é investigador sénior do Centro de Sistemas de Energia do INESC TEC e responsável atual pela área de X-Energy Management Systems que se dedica ao desenvolvimento de soluções de gestão de energia interoperáveis para edifícios. Doutorado pela Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto em Sistemas Sustentáveis de Energia, tem desenvolvido a sua atividade de investigação em temas como os sistemas de comunicações para as redes elétrica inteligentes, a gestão de energia em edifícios domésticos e a integração de geração renovável nos sistemas elétricos. Tem estado envolvido em vários projetos Europeus como o MERGE, evolvDSO, SmarterEMC2, AnyPLACE e InteGrid onde se desenvolveram estratégias para a integração de recursos de energia distribuídos e a otimização do uso de energia.

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