
Graça Martinho (Resíduos-Tendências): Nanomateriais nos resíduos urbanos – os novos contaminantes emergentes
A ciência e engenharia dos nanomateriais (NM) têm-se revelado uma das áreas mais promissoras e fascinantes deste século, confirmada pelo elevado número de publicações científicas e o crescimento exponencial de aplicações tecnológicas inovadoras de materiais nanoestruturados em áreas tão diversas como a mecânica, eletrónica, informática, nutrição, ótica, medicina, farmacologia, cosmética, química, biologia, ambiente, energia, aeronáutica, entre outros.
Estamos a falar de materiais com estruturas que variam entre 1 a 100 nanómetros (nm), sendo que 1 nm é equivalente a 0,000000001 m ou um milionésimo de milímetro, uma unidade de medida utilizada ao nível dos átomos e moléculas. As excecionais propriedades e características únicas dos NM (e.g. alta reatividade química e condutividade) têm permitido obter novas funcionalidades e aplicações, com grandes benefícios económicos, sociais e ambientais. A nanotecnologia, incluindo a nanobiotecnologia, tem sido apresentada como a maior e mais rápida revolução industrial do mundo.
Milhares de produtos de uso corrente contêm já NM (e.g. cosméticos, eletrodomésticos, fármacos, tintas, artigos desportivos, sensores, smartphones, têxteis, pilhas) e, consequentemente, o aparecimento de NM no fluxo dos resíduos irá crescer exponencialmente nos próximos anos, já que estes produtos são descartados da forma convencional, sem nenhum tipo de restrições ou exigência de tratamento específico.
A comunidade internacional (OCDE, União Europeia, equipas internacionais de investigação) tem revelado grande apreensão e preocupação face aos potenciais riscos da nanopoluição. Um exemplo é o relatório de um estudo que OCDE disponibilizou na sua página (no dia 22/02/16), intitulado “Nanomateriais nos fluxos de resíduos: conhecimento atual sobre os riscos e os impactos”, no qual é evidenciada a urgência de pesquisas sobre os potenciais riscos da crescente presença de NM no fluxo dos resíduos urbanos. Entre 2006-2011 o número de produtos contendo NM quintuplicou a nível global, tendo-se identificado a sua presença em mais de 1.300 produtos. Em 2012 o mercado global dos NM foi avaliado em 11 milhões de toneladas com um valor de mercado da ordem dos 200 biliões de euros, prevendo-se que em 2015 tenha atingido os 2 triliões de euros.
Em causa estão os produtos contendo NM que chegam ao final do seu ciclo de vida e entram nos processos de reciclagem, compostagem, incineração, aterro ou estações de tratamento de águas residuais. Porque não são retidos ou eliminados de forma eficaz nestas unidades, acabam por se dispersar nos ecossistemas, quer nas águas superficiais e subterrâneas (pelos efluentes e lixiviados tratados que são descarregados nos meios recetores hídricos), quer nos solos (por aplicação de lamas de ETAR ou composto, ou rega com águas residuais tratadas), quer na atmosfera (emissões das incineradoras), quer através da produção de matérias secundárias nos processos de reciclagem ou a aplicação de cinzas e escórias em estradas.
Devido à sua reduzida dimensão, forma e estrutura, à facilidade com que se dispersam no ambiente e o facto de poderem ser inalados, ingeridos e penetrar na pele e nas células, os NM representam um potencial risco grave para a saúde e ambiente. Embora seja crescente o número de artigos publicados a área da nanotoxicologia e nanopoluição, a grande mensagem do relatório da OCDE é que não há ainda um consenso científico sobre os potenciais riscos dos NM, desconhecem-se muitos dos mecanismos de interação dos NM com os biossistemas, sendo portanto urgente mais e melhor investigação nesta área, com equipas multidisciplinares, já que o assunto exige uma abordagem.
São vários os exemplos, de um passado recente, de tecnologias emergentes com enorme potencial para aplicações industriais ou médicas que se revelaram mais tarde como bastante nocivas para o ser humano e o ambiente, por exemplo, a produção e ampla utilização do DDT ou do amianto. Também no caso da nanotecnologia, a sensação que se tem é que se acabou de abrir uma nova “caixa de pandora”. Se é certo que o passado nos ensinou que devemos aplicar o princípio da precaução, também é certo que o fascínio destas novas descobertas científicas e a evolução com que estão a ser aplicadas na produção e comercialização de novos produtos não se compadece com o tempo requerido para investigações metodologicamente credíveis.
Numa perspetiva de prevenção de riscos o setor dos resíduos assume um papel crucial, já que é para os sistemas de valorização e tratamento de resíduos que vão parar os milhares de produtos que contêm NM, sendo importante retê-los, eliminá-los ou contê-los em espaços confinados, evitando a sua dispersão no ambiente. Mas, como identificar todos os produtos contêm NM? Como fazer a identificação e quantificação dos NM presentes no fluxo de resíduos? Que capacidade têm as melhores tecnologias disponíveis para captar ou reter os NM dos resíduos? Que comportamentos têm os NM ao longo dos processos de tratamento? Quais são as principais vias de dispersão e acumulação destes NM no ambiente? Podem os NM ser transformados por fatores bióticos e/ou abióticos? Como interagem com outros contaminantes? Que subprodutos são originados na sua degradação? Estas são algumas das questões que a ciência ainda não consegue dar e que constituem grandes desafios para o setor dos resíduos.
Para mais informações sobre o relatório da OCDE consultar: http://www.oecd.org/environment/waste/nanomaterials-in-waste-streams-9789264249752-en.htm
Graça Martinho é doutorada em Engenharia do Ambiente, especialidade sistemas sociais, exerce as funções de subdiretora da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa e a docência de disciplinas de gestão de resíduos. É membro da Comissão de Acompanhamento para a Gestão dos Resíduos da APA, do Conselho Consultivo da ERSAR, do Conselho de Ambiente e Sustentabilidade da EDP e da Comissão Consultiva de I&D da SPV. Tem vários artigos científicos e livros publicados na temática da gestão de resíduos. A autora escreve, por opção, ao abrigo do Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.