Jaime Melo Baptista (Água): Vem aí o Horizonte Europa, vamos organizar-nos sem medos nem hesitações?

14.05.2019

O Parlamento e Conselho da União Europeia chegaram a um acordo parcial sobre o novo programa-quadro de investigação e inovação Horizonte Europa e sobre o seu programa de execução. O objetivo é que a União Europeia seja mundialmente liderante na inovação e na excelência, alargando o âmbito da sua investigação e dando prioridade à pequenas e médias empresas. Este programa-quadro vem substituir o atual Horizonte 2020, que termina no final de 2020.

 

A proposta da Comissão Europeia prevê uma dotação financeira de cerca de 90 mil milhões de euros para o período de 2021-2027. Estima que o Horizonte Europa possa gerar até 100 000 novos empregos em investigação e inovação nesse período. Pretende fortalecer a ciência, a tecnologia e a inovação europeias, acelerar a competitividade industrial e cumprir as prioridades estratégicas europeias, por exemplo de adaptação às alterações climáticas. O programa-quadro será baseada em três pilares: ciência aberta; desafios globais e competitividade industrial; e inovação aberta. Inclui novos instrumentos, como o Conselho Europeu de Inovação e um balcão único para apoiar a inovação de alto risco e projetos inovadores de criação de mercado.

 

O Parlamento quer que os Estados-Membros com baixo desempenho em investigação e inovação se envolvam mais no programa, como é o caso de Portugal, nomeadamente reduzindo a diferenças de remuneração existentes entre investigadores em toda a União Europeia e aumentando o orçamento dedicado a disseminar a excelência e a reforçar o espaço europeu da investigação. Também se prevê um suporte mais amplo para pequenas e médias empresas (PME), incluindo startups, com 70% do orçamento dedicado. Foram acordadas cinco áreas prioritárias de investigação: adaptação às alterações climáticas; doenças oncológicas; oceanos, mares e águas saudáveis; cidades inteligentes e com neutralidade carbónica; e solo saudável e alimentos. Será dada ênfase às ciências sociais, ciências humanas e as indústrias criativas.

 

O setor da água em Portugal deveria acompanhar atentamente este processo e posicionar-se atempadamente, preparando as parcerias mais adequadas, sem medo de perder, mas com a convicção de que pode ganhar. A água está nas prioridades europeias para os próximos sete anos, diretamente (águas saudáveis) e indiretamente (adaptação às alterações climáticas, cidades inteligentes, solo saudável e alimentos).

 

Temos hipóteses? Claro que sim. Como dizia Theodore Roosevelt, é muito melhor arriscar, mesmo expondo-nos à derrota, do que viver na penumbra cinzenta em que nem desfrutamos nem sofremos, porque que não conhecemos vitória nem derrota. Ou, como dizia José Saramago, o que as vitórias têm de mau é que não são definitivas, e o que as derrotas têm de bom é que também não são definitivas. Ou ainda, como dizia o brasileiro Roberto Shinyashiki, na vida sempre haverá derrotas e vitórias, a diferença é que, enquanto que os ganhadores crescem nas derrotas, os perdedores se acomodam nas vitórias.

 

E não nos esqueçamos de incluir os jovens nas propostas. Eles são as mulheres e os homens de amanhã. E vão ser melhores do que nós, não tenham dúvidas. Falar de juventude significa voltarmo-nos para o futuro. O passado é para recordar, o futuro é para conquistar, também no setor da água.

 

Jaime Melo Baptista, engenheiro civil especializado em engenharia sanitária, é Investigador-Coordenador do LNEC, Coordenador do Lisbon International Centre for Water (LIS-Water), vogal do CNADS e Presidente do Conselho Estratégico da PPA e foi Comissário de Portugal ao Fórum Mundial da Água 2018. Integrou o conselho de administração e o conselho estratégico da IWA. Foi presidente da ERSAR (2003-2015), dirigiu o Departamento de Hidráulica (1990-2000) e o Núcleo de Hidráulica Sanitária (1980-1989) do LNEC, foi diretor da revista Ambiente 21 (2001-2003) e consultor. Foi distinguido com o IWA Award for Outstanding Contribution to Water Management and Science.

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