Joanaz de Melo (Energia-Tendências): Interligações energéticas: oportunidade ou novo elefante branco?

01.07.2016

Tem vindo a levantar alguma discussão nos media a problemática das interligações energéticas, quer no sector eléctrico quer no gás natural. Tem sido especial motivo de interesse o projecto de ligação por cabo eléctrico submarino entre Portugal e Marrocos.

 

O princípio é bom: sistemas energéticos interligados são mais resilientes e tendencialmente mais baratos do que sistemas isolados. Isto resulta da complementaridade parcial entre os sistemas, que permite através das interligações optimizar o uso das capacidades de produção, reduzindo tanto a criação de sobre-capacidade como os custos operacionais. O mercado ibérico da electricidade (MIBEL) é um exemplo disto mesmo: segundo os dados da REN, quase todos os dias há transacções de electricidade nos dois sentidos entre os dois países; o preço médio de mercado da

electroprodução caiu de 70 €/MWh em 2008, para 28 €/MWh no primeiro semestre de 2016 (a média 2012-2015 cifra-se em 46 €/MWh); o preço de mercado da electricidade é idêntico em Portugal e Espanha 94% do tempo.

 

A complementaridade e consequente redução de custos na rede ibérica é permitida por um bom nível de interligação das redes de Portugal e Espanha. A capacidade de interligação nominal é cerca de 3,0 GW. Por razões técnicas, esta capacidade não está integralmente disponível: segundo a REN, em 2015 a disponibilidade média foi de 2,8 GW para exportação e 2,2 GW para importação. A utilização efectiva média foi 9% na exportação e 24% na importação, quase nunca atingido a capacidade disponível.

 

Significa isto que mais interligações é sempre melhor? Claro que não. Portugal tem um parque electroprodutor com 19 GW de capacidade instalada, pelo que a capacidade de interligação nominal é 3/19=16% (se usarmos as capacidades disponíveis, este número ainda aumenta). Ou seja, temos excelentes condições de interligação da rede eléctrica e já ultrapassámos a meta para 2030 (15%) — não precisamos de mais a curto prazo.

 

Razões que aconselham a equacionar reforços futuros das interligações:

 

-          Portugal tem um grande potencial de energias renováveis, nomeadamente solar, que poderá em certas condições ser um produto de exportação interessante;

-          O já acordado reforço das ligações através dos Pirenéus, entre Espanha e França, aumentará o nosso potencial de exportação ou de entreposto, especialmente no gás natural, onde poderemos ajudar a abastecer a Europa por via marítima.

 

Razões que aconselham a ponderar ou adiar aumentos de capacidade:

 

-          Os consumos de energia têm vindo a diminuir na última década, não apenas devido à crise mas ao progresso tecnológico e à aposta crescente na eficiência energética;

-          As novas tecnologias de armazenagem podem rapidamente tornar-se mais baratas que as redes de longa distância para efeito de regulação do sistema eléctrico;

-          Como já dispomos de capacidade excedentária, qualquer novo investimento terá encargos elevados (que serão pagos pelos consumidores), só justificável sob condições muito estritas e claras;

-          Quer a produção quer o transporte de energia implicam importantes impactes ambientais e sociais negativos. Sabemos bem que estratégias de eficiência energética e produção descentralizada serão as mais baratas e compatíveis com modelos de desenvolvimento sustentável.

 

Em síntese, quaisquer novos investimentos em interligações energéticas devem ser muito, muito bem ponderados. Queremos auto-estradas da energia, mas não falsas SCUT da energia.

 

João Joanaz de Melo é licenciado e doutorado em Engenharia do Ambiente e professor na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa. Amante da Natureza, activista nas horas vagas, foi fundador e presidente do GEOTA.

TAGS: opinião , João Joanaz de Melo , energia , tendências
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