Nuno Campilho (Água-Regulação): "Feche a torneira” (já vai tarde na Cidade do Cabo*)

23.02.2018

Numa altura em que, infelizmente, se volta a discutir a seca, em Portugal – de acordo com o IPMA, a 15 de fevereiro deste ano, 9% do território nacional estava em seca extrema, 77% em seca severa e 10% em seca moderada – tenho acompanhado, com atenção e curiosidade, o resultado das medidas que foram sendo anunciadas pelo Governo a este respeito, desde o início do ‘flagelo’, o ano passado.

 

Para não ser acusado de utilizar argumentos infundados, fui à procura de informações concretas sobre o assunto, tendo optado (pareceu-me lógico) por consultar o site do Ministério do Ambiente e o que é que eu encontrei? A pesquisa “ministério do ambiente Portugal”, encaminha-me para o site da APA e o link www.maotdr.gov.pt não funciona. Fui tentar através do telemóvel e fui encaminhado para a Secretaria-Geral do ministério. No site da APA, para além da campanha “Feche a torneira” (ok...), clica-se no logótipo “República Portuguesa AMBIENTE” e é-se direcionado para o portal do Governo.

 

Voltei ao telemóvel (vocês desculpem lá, mas isto é hilariante) e lá consegui, através do endereço www.portugal.gov.pt, chegar à página do Ambiente! Concluo (erradamente?!), que o Ministério do Ambiente, em Portugal, não tem sítio na internet...

 

Voltando ao que interessa, finalmente, consegui ficar a saber que o Ministro do Ambiente afirmou que o Governo está a preparar uma nova campanha para a poupança de água que vai abranger todos os setores, através de uma ação de sensibilização que tem de ser dirigida a todos e não apenas ao uso doméstico, para evitar que falte água na torneira das pessoas (já valeu o trabalho... até parecia que o setor agrícola era intocável ou, então, que tinha havido uma amnésia coletiva em relação ao PNUEA 2012-2020).

 

A campanha vai ser lançada em março e será dirigida a todos os outros grandes utilizadores de água, como a pecuária, a agricultura, a rega e a indústria. «Temos mesmo de alargar a campanha a todos porque, na altura, já todos os agricultores sabiam bem que estavam em seca, não era preciso dizer-lhes para pouparem água», disse João Pedro Matos Fernandes perante os deputados da comissão parlamentar do Ambiente, Ordenamento do Território, Descentralização, Poder Local e Habitação. Só por causa disto, o ministro merece o meu aplauso e faz-me esquecer, de vez, o “onde está o Wally?” que se revelou a busca, infrutífera, pelo site do Ministério do Ambiente.

 

Mas como o meu fito inicial era, mesmo, saber o resultado das medidas que foram sendo anunciadas, deparo-me com a criação da Comissão Permanente de prevenção, monitorização e acompanhamento dos efeitos da seca, (7 de junho de 2017, pela resolução do Conselho de Ministros n.º 80/2017).

 

Lá vão achar que eu estou a ironizar, mas fiquei tão entusiasmado com as competências da comissão (aprovação e o acompanhamento da implementação do plano de prevenção, monitorização e contingência para situações de seca; e definição de orientações de caráter político no âmbito do fenómeno climático adverso da seca), que fiquei ávido de saber a que é que ela se dedicou e deparei-me com o Balanço do Ano Hidrológico 2016/17, a 30 de outubro de 2017 (pode ser consultado aqui, para não dizerem que eu faço juízos de valor inadequados). Hum...

 

Quanto “ao mais”, note-se que a comissão é assessorada por um Grupo de Trabalho - GT Seca - constituído por 21 entidades, que se organizam consoante situações de prevenção e monitorização, ou situações de contingência. “Que se organizam”...

 

E, pronto, temos o “Feche a torneira”... mas o ministro esteve muito bem!

 

Aguardemos...

 

(ainda passei pelo site da ERSAR e gostei do que vi, logo a abrir, CAMPANHA DE SENSIBILIZAÇÃO PARA A SECA, cliquei, era o “Feche a torneira”...)

 

*vide Newsweek (What is ‘Day Zero’? Cape Town set to became first major city to run out of water, by Tracy Lee, jan.26, também reproduzido na revista Visão)

 

Nuno Campilho é licenciado em Relações Internacionais pela Universidade Lusíada e Pós-graduado em Comunicação e Marketing Político e em Ciência Política e Relações Internacionais. Possui ainda o Executive MBA do IESE/AESE. Foi presidente da União das Freguesias de Oeiras e São Julião da Barra, Paço de Arcos e Caxias e consultor especializado em modelos de gestão de serviços públicos de água e saneamento. Foi administrador dos SMAS de Oeiras e Amadora e chefe de gabinete do Ministro do Ambiente Isaltino Morais. Exerceu ainda funções de vogal do Conselho de Gerência da Habitágua, E.M.. É membro da Comissão Especializada de Inovação da APDA e Diretor Delegado dos SIMAS de Oeiras e Amadora. 

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