Nuno Campilho: O futuro do setor da Água e do Saneamento

14.10.2020

Acompanhava, aqui há dias, um dos muitos webinars que, em boa altura, a APDA se lembrou de organizar, desafiando, para o efeito, cada uma das suas comissões especializadas, quando me deparei com um subordinado ao tema “a gestão do talento no setor da água”, o que até remete para o meu artigo anterior, mas não é sobre isso que vos gostaria de falar hoje.

 

Estou no setor vai para 15 anos. No entanto, estar no setor não é o mesmo que fazer parte do setor.

 

Penso ter ganho, ao longo destes anos, o direito e o privilégio de fazer parte do setor.

 

O setor da Água é, na nossa sociedade – já por si fechada e conservadora, digam o que disserem – dos setores mais herméticos que conheço, concentrado em torno de um conjunto de profissionais que, sem prejuízo de toda a sua mais valia, saber, competência e capacidade de legar (eu que o diga), andam por cá há mais de 30 anos e são sempre os mesmos.

 

Isto diz muito de três coisas: primeiro, da sua longevidade, o que se saúda; segundo, da sua cristalização, o que já não é tão saudável; terceiro, da sua incapacidade de se renovar, e isto, sim, é francamente preocupante.

 

Ainda que eu já me sinta a meio caminho entre a longevidade e a cristalização, tenho lutado pela minha intrínseca capacidade de renovação e, sobretudo, do setor. O problema é serem criadas as condições para isso.

 

Para quem, como eu, faz parte do setor (ou, até, para quem só está no setor), não é difícil encontrar exemplos de cristalização, em linha com a incapacidade de renovar. Basta olhar para as principais instituições que gerem, tutelam e regulam a Água e o Saneamento em Portugal. E quando é necessário rever, reformular, criar, ou inovar (vide o caso das comissões criadas para dar suporte à agregações em baixa promovidas por este governo, na anterior e na atual legislatura, e a mais recente comissão constituída para a elaboração do PENSAARP 2030), também se recorre a mais do mesmo, que é o mesmo que dizer, que são sempre os mesmos.

 

Quem me lê até agora, vai ficar a pensar que algo me move contra essas personagens. Pois, lamento informar, que estão redondamente enganados. Tenho, por elas, o máximo respeito e estima, porque delas recebi o legado que me permite, por exemplo, estar a escrevinhar este exercício de liberdade.

 

Onde é que está o busílis da questão, então?

 

"(...) a renovação tem de ser top-down, pois só assim se alarga o círculo e se poderá caminhar em passos mais largos para o fim da sua ‘cartelização’"

 

Tão somente na incapacidade de olhar para o lado e verificar o quão crescido e maduro está o setor, capaz de nos granjear com jovens profissionais altamente qualificados e que só precisam que lhes mostrem o caminho, pois eles saberão percorrê-lo (as comissões especializadas da APDA integram, em si, alguns bons exemplos do que estou a falar).

 

A tibieza da situação, a maior parte das vezes, nem está em quem protagoniza, mas sim em quem produz o argumento, o que significa que a renovação tem de ser top-down, pois só assim se alarga o círculo e se poderá caminhar em passos mais largos para o fim da sua ‘cartelização’.

 

Como propôs Simon Sinek (autor, de entre outros, dos livros Start With Why: How Great Leaders Inspire Everyone to Take Action  e Leaders Eat Last), temos de fazer o shift do “Círculo Dourado”, como padrão que ocorre naturalmente, enraizado na biologia da tomada de decisão humana e que explica por que motivo somos mais inspirados por algumas pessoas, líderes, causas e organizações em detrimento de outros, para os “Círculos de Segurança”, através dos quais podemos melhorar os sentimentos de confiança nas alturas em que é necessário tomar-se uma decisão ousada.

 

Vamos a isso?

 

 

Nuno Campilho é licenciado em Relações Internacionais pela Universidade Lusíada e Pós-graduado em Comunicação e Marketing Político e em Ciência Política e Relações Internacionais. Possui ainda o Executive MBA do IESE/AESE. Foi presidente da União das Freguesias de Oeiras e São Julião da Barra, Paço de Arcos e Caxias e consultor especializado em modelos de gestão de serviços públicos de água e saneamento. Foi administrador dos SMAS de Oeiras e Amadora e chefe de gabinete do Ministro do Ambiente Isaltino Morais. Exerceu ainda funções de vogal do Conselho de Gerência da Habitágua, E.M.. É membro da Comissão Especializada de Inovação da APDA e Diretor Delegado dos SIMAS de Oeiras e Amadora.

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