Opinião Álvaro Menezes (Saneamento-Brasil): Brasil em transe

17.04.2017

Em 1967, o cineasta Glauber Rocha produziu o filme “Terra em Transe”, que os estudiosos do cinema classificam como uma maravilhosa fábula cinematográfica. De fato, uma história que deve ter sido resultado de um transe, um estado de espírito extraordinário que o levou a produzir uma visão de futuro da política no Brasil. Quase uma parábola, já afirmaram outros, o filme resume a escalada de pessoas de mau caráter junto com a projeção política e a corriqueira exploração da miséria do povo, sempre instrumento útil e adorador de falsos líderes.

 

Este estado de transe, transformado em pesadelo permanente num país de tantas potencialidades, está mais atual que nunca nas ditas delações da Odebrecht. Nada mais que um libelo explícito do que somos, como somos e como ainda seremos, enquanto o enredo de “Terra em Transe” for um capítulo ativo deste filme chamado “Brasil em Transe”.

 

É surpreendente ouvir as verdades nas confissões dos executivos de uma da maiores e mais qualificadas empresas de engenharia do mundo. Os políticos, da ativa ou não, com poucas exceções, fazem seu papel fieis ao enredo de Glauber Rocha e negam tudo, alegando falta de provas.

 

Diante do prejuízo moral e econômico visíveis, não restam dúvidas que está se vivendo um momento ímpar e uma daquelas ocasiões em se pode fazer uma mudança que levará a uma inflexão positiva na curva de moralidade e ética na gestão pública nacional ou se mergulhará no transe sem fim, de ciclos político-eleitorais que manterão o Brasil sempre como uma promessa de potencialidades e desenvolvimento, iludindo aqueles que acham que desenvolvimento se mede pela quantidade de pobres viajando de avião de carreira, enquanto seus líderes voam de jatinhos.

 

Dizem por aqui alguns analistas e apresentadores de cenários, que a economia nacional não está sendo, nem será afetada pelas delações de apenas uma empresa. Entretanto, pelo desconfiança já consignada pelo afastamento de investidores internacionais qualificados e éticos, que não só suspenderam seus planos e projetos em relação ao País, como reveem sua permanência em negócios iniciados e rejeitam a participação em novos empreendimentos, não é possível fugir da realidade e acreditar que com as mesmas forças políticas e muitas das mesmas pessoas, possam os mesmo instrumentos de governança corporativa e sistemas de compliance produzir resultados diferentes.

 

Como no filme de Glauber Rocha, é surpreendente para muitos brasileiros ver como se fundiram a realidade e o fantástico, o surreal e o bizarro, que irrompe das narrativas de executivos da Odebrecht. A esperança, teimosa companheira do povo, ainda aponta para a possibilidade de se usar este “Brasil em Transe” como exemplo de que, despertos do estado de pesadelos e delírios, apareça uma realidade de respeito real às leis, à ordem e aos princípios de ética e moralidade que superam os sistemas de compliance e podem tornar efetivas as ações de governança corporativa nas organizações públicas e privadas nacionais, tornando o Brasil um país confiável.     

 

Álvaro José Menezes da Costa é engenheiro civil graduado pela UFAL (Universidade Federal do Estado de Alagoas) com especialização em Aproveitamento de Recursos Hídricos (UFAL) e Avaliação e Perícias de Engenharia (UNIP - Universidade Paulista). É segundo secretário nacional da ABES-Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental desde 2016 e sócio executivo da GO Associados Consultoria Multidisciplinar, responsável pelo escritório Norte/Nordeste. É consultor independente na Álvaro Menezes Engenharia & Consultoria. Foi engenheiro e gestor público no setor de saneamento durante 30 anos na CASAL-Cia. de Saneamento de Alagoas e na COMPESA-Cia. Pernambucana de Saneamento. É autor de livros, capítulos de livros na área do saneamento ambiental e colunista na imprensa brasileira.

TAGS: Opinião , Álvaro Menezes , Brasil , água , saneamento
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