Opinião Álvaro Menezes (Saneamento - Brasil): Águas brasileiras

14.09.2017

Há muitos anos atrás se diria que com certeza elas são muitas, são tantas e são fartas. Hoje esta afirmação quase ufanista, se transformou na pergunta: onde e como estão as águas brasileiras?

 

Observando a geografia se verá que ainda são muitas, mas estão tão mal distribuídas e com sua qualidade tão comprometida, que em algumas regiões há escassez hídrica pela simples comparação entre a demanda decorrente do crescimento populacional e a oferta de água na natureza; ou ainda, como no Nordeste, porque de fato a disponibilidade hídrica é inferior à necessária; ou então, devido a lançamentos de esgotos, os custos com tratamento são elevados e os mananciais de água doce e limpa, cada vez mais distantes.

 

Apresentar de forma objetiva e leve o real cenário das águas brasileiras, é um dos pontos desafiadores para qualquer plano de gestão de recursos hídricos, tanto no âmbito nacional quanto no estadual.

 

Uma dificuldade ainda é unir a experiência, o conhecimento técnico e a visão de especialistas sobre as águas brasileiras e sua relação com a vida urbana e rural, em contrapartida aos interesses políticos e da própria sociedade.

 

Sendo a água dita como um bem natural e direito de todos, ela não é uma posse nem segue a ordem natural do significado da palavra que a levaria a ser propriedade de alguém.

 

Como bem público, o manejo da água deve e precisa ser feito com base em princípios de gestão, de modo que ela possa estar preservada, protegida e disponível para uso de todos sem distinção de qualquer tipo.

 

Assim, outra importante iniciativa para valorizar os recursos hídricos nacionais, é relacionar de maneira realista as pessoas, a água e a sua gestão, alertando para a necessidade de gerenciar os mecanismos de integridade ou, usando o termo da hora, a compliance, como instrumento para melhorar a gestão da água, insumo principal do saneamento e valioso ativo natural a ser preservado e conservado. 

 

E falar de compliance – a crise moral e ética que atinge o Brasil tornou esta palavra muito comum – não quer somente dizer que todos devem ter os códigos de ética e conduta em seus birôs e repetir as normas como mantra.

 

É preciso praticar os princípios, seguir as normas e respeitar a lei, com a clara visão de convivência em sistemas comuns dominados por pessoas em ambientes organizacionais de trabalho.

 

Para conectar a compliance com as águas brasileiras e seu manejo, é preciso ter a mente aberta à mudanças de hábitos pessoais e modelos de gestão públicos, neste caso os de recursos hídricos e de saneamento, é avançar mais firmemente no conhecimento da importância da gestão como um compromisso ético para garantia de direitos universais de acesso a água hoje e no futuro.

 

As águas brasileiras precisam ser manejadas de forma técnica e profissional, sem ideologias ou messianismos, pois o Brasil possui um bom arcabouço legal que se reforça dia a dia com exemplos de gestão e regulação de serviços que podem significar que, neste quinto de século prestes a acabar, apareçam o tempo de mudanças, a hora das decisões que priorizam o bem comum e a garantia da sustentabilidade de serviços públicos como saneamento, com base em eficiência na gestão.

 

Álvaro José Menezes da Costa é engenheiro civil graduado pela UFAL (Universidade Federal do Estado de Alagoas) com especialização em Aproveitamento de Recursos Hídricos (UFAL) e Avaliação e Perícias de Engenharia (UNIP - Universidade Paulista). É segundo secretário nacional da ABES-Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental desde 2016 e sócio executivo da GO Associados Consultoria Multidisciplinar, responsável pelo escritório Norte/Nordeste. É consultor independente na Álvaro Menezes Engenharia & Consultoria. Foi engenheiro e gestor público no setor de saneamento durante 30 anos na CASAL-Cia. de Saneamento de Alagoas e na COMPESA-Cia. Pernambucana de Saneamento. É autor de livros, capítulos de livros na área do saneamento ambiental e colunista na imprensa brasileira. É Membro da Academia Nacional de Economia.

TAGS: Saneamento , Brasil
Vai gostar de ver
VOLTAR