Opinião Álvaro Menezes (Saneamento - Brasil): Uma semana pela água

19.03.2018

Pela primeira vez no hemisfério sul, o Fórum Mundial da Água acontece no Brasil, notadamente em Brasília entre 18 e 23 de março. Grandioso por seus números de participantes, expositores, palestrantes, pesquisadores e autoridades governamentais, é abrilhantado por uma valorosa participação de pessoas de várias partes do mundo.

 

Pelos temas que serão debatidos, pelas inovações que poderão ser vistas na Feira internacional ou pelas reuniões de alto nível que ocorrerão durante o evento, cria-se a expectativa de que este Fórum deixará um legado para o Brasil que há anos, apesar da evolução que ocorreu nas áreas de gestão de recursos hídricos e em atividades como saneamento básico, não consegue se desvencilhar da influência irracional de políticos em tema tão importante e estratégico como a gestão das águas.

 

A existência de planos nacionais, estaduais e municipais, não livrou o País da mania nacional de desprezá-los em nome das demandas ditas urgentes, algumas justificadas por eventos climáticos e outras por meras necessidades eleitorais, as quais transformam e reduzem as metas quantitativas e qualitativas constante nesses planos a festejadas e improdutivas emendas parlamentares ou numa busca constante pela alavancagem de financiamentos, resumindo tudo a grandes investimentos e obras.

 

Os últimos anos têm confirmado o que virou rotina desde a década de noventa: o Brasil não possui nem quer possuir planos de desenvolvimento e investimentos que sejam de longo prazo. Prefere a gestão com emoção, atuando a cada dia, com a maioria de seus gestores públicos buscando formas de fazer obras, sem planejamento e bons projetos.

 

O resultado está cada dia mais inserido na vida das cidades ameaçadas pela crise hídrica, pela falta de água, pela contaminação de corpos hídricos e pela instabilidade visível na insegurança administrativa e jurídica que cercam a prestação de serviços de saneamento, por exemplo.

 

O legado mais importante de todo Fórum, espera-se que não seja mais uma carta de Brasília como é comum resultar em todos os grandes eventos e Fóruns como este. Espera-se, outrossim, que as entidades que compõem o Fórum, bem como aquelas que atuam no setor de águas, adotem uma agenda de mobilização marcada por ações e atos que possam dia a dia, mês a mês, lembrar que o Brasil precisa ter planejamento e respeitar os planos existentes fazendo-os funcionar à luz de princípios regulatórios manejados por profissionais capacitados atuando em agências autônomas e dotadas de condições para fazer com a água possa permanecer por mais tempo à disposição da sociedade e dos seres vivos.

 

Enfim, tomara que do Fórum restem exemplos fortes e motivadores de que defender só mais investimentos não resolve. É preciso ter planejamento integrado, gestão eficiente e regulação efetiva.

 

Álvaro José Menezes da Costa é engenheiro civil graduado pela UFAL (Universidade Federal do Estado de Alagoas) com especialização em Aproveitamento de Recursos Hídricos (UFAL) e Avaliação e Perícias de Engenharia (UNIP - Universidade Paulista). É Diretor Nacional da ABES-Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental desde 2016 e sócio executivo da GO Associados Consultoria Multidisciplinar, responsável pelo escritório Norte/Nordeste. É consultor independente na Álvaro Menezes Engenharia & Consultoria. Foi engenheiro e gestor público no setor de saneamento durante 30 anos na CASAL-Cia. de Saneamento de Alagoas e na COMPESA-Cia. Pernambucana de Saneamento. É autor de livros, capítulos de livros na área do saneamento ambiental e colunista na imprensa brasileira. É Membro da Academia Nacional de Economia.

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