Opinião Carlos Zorrinho: Carros para a Vida

06.03.2019

A afirmação do Ministro Matos Fernandes sobre a desvalorização potencial acrescida dos carros a Diesel no futuro próximo, foi um alerta oportuno, independentemente das considerações legitimas sobre o seu grau de intensidade, e teve a grande vantagem de alargar a toda a sociedade portuguesa um debate muito atual e absolutamente prioritário.

 

Enquanto membro efetivo da comissão de inquérito do Parlamento Europeu às emissões automóveis (conhecida como comissão “Dieselgate”) tomei mais forte consciência de que, para além da questão das emissões de gases com efeito de estufa que é necessário controlar e mitigar, também as emissões de nitrato de azoto, essencialmente produzidas pelas motorizações a diesel, altamente nocivas para a saúde humana quando em elevadas concentrações, devem ser cuidadosamente supervisionadas e reduzidas de forma inteligente.

 

Sejamos claros. Precisamos dos carros para a vida, num mundo em que a mobilidade rodoviária é cada vez mais facilitada por infraestruturas de elevada qualidade, mas temos ao mesmo tempo que impedir que se verifiquem só na União Europeia, 400 mil mortes prematuras por ano devido à qualidade do ar.

 

A questão da concentração de emissões nocivas para a saúde coloca-se sobretudo nas cidades. É por isso que as medidas restritivas à circulação de carros a diesel (e em muitos casos a toda a circulação automóvel) têm sido sobretudo aplicadas em centros urbanos.

 

Lisboa, capital verde europeia em 2020, tem um plano exemplar de mobilidade sustentável que cruza a aposta nos transportes públicos com frotas renovadas, com a oferta de múltiplas soluções de mobilidade partilhada com particular ênfase nos veículos elétricos.  Planos como o de Lisboa vão tornar naturalmente os carros de baixas emissões, designadamente os carros elétricos, veículos prioritários e com incentivos de circulação em detrimento de outras soluções.

 

Fora das cidades a tendência para a eletrificação e para a descarbonização também estará presente, de acordo aliás com as metas do plano nacional de descarbonização, mas a transição será mais lenta e terá em conta os múltiplos impactos dessa dinâmica de forma a salvaguardar o ambiente, mas também a qualidade e a quantidade do emprego e a modernização competitiva do tecido económico.   

 

Precisamos de carros para a vida e para a qualidade de vida. Uma transição inteligente permitirá fazê-lo em benefício de todos.

 

Carlos Zorrinho, eurodeputado do PS, membro da Comissão da Indústria, da Investigação e da Energia no Parlamento Europeu, é licenciado em Gestão de Empresas e doutorado em Gestão de Informação pela Universidade de Évora. Foi professor catedrático do Departamento de Gestão da Universidade de Évora, deputado à Assembleia da República pelo PS (1995-2002 e 2004-2014), líder Parlamentar do Partido Socialista na Assembleia da República (2011-2014) e, no Governo, ocupou as funções de Secretário de Estado da Energia e da Inovação (2009 e 2011) e secretário de estado Adjunto da Administração Interna entre 2000 e 2002.

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