Opinião Carlos Zorrinho (Energia): Incêndios florestais - A energia como parte da solução

17.07.2017

É consensual na sociedade portuguesa que a nossa floresta precisa de ser alvo de medidas estruturais de reordenamento. As medidas necessárias são tão complexas e sistémicas que têm que ser aplicadas com grande determinação, abordagem transversal e articulação forte entre todos os patamares de decisão política, os atores da fileira florestal e as comunidades de cidadãos que habitam os territórios em risco.    

 

Nas várias funções políticas que desempenhei assisti a muitos esforços bem-intencionados para reordenar a floresta em Portugal, potenciando-a como fonte de riqueza e sustentabilidade ambiental e minimizando o risco de exposição aos incêndios que recorrentemente a têm assolado. Um risco cada vez mais elevado, face aos fenómenos de alterações climáticas que são cada vez mais sensíveis e perturbadores. Esses esforços permitiram pequenos passos, mas que a realidade dos factos demonstra serem ainda muito insuficientes.

 

Na resposta integrada que urge concretizar, as centrais de produção de eletricidade a partir de biomassa florestal podem dar um contributo importante para a limpeza da floresta e ao mesmo tempo para tornarem mais atrativas as plataformas de gestão comum das pequenas parcelas fundiárias que constituem a matriz dominante de propriedade numa parte significativa do território.

 

O valor acrescentado para a preservação da floresta e do património que resulta deste mecanismo de incentivo à gestão comum e à limpeza da floresta não pode deixar de se refletir numa bonificação do preço que permita tornar sustentáveis os investimentos necessários, considerando nessa bonificação os custos evitados com a redução de incêndios, a redução de importações de combustíveis fósseis e a redução de emissões de gases com efeitos de estufa conseguidas pelo uso de um recurso endógeno e renovável.

 

Um adequado mecanismo de cálculo das bonificações e a montagem de um sistema seguro de recolha dos resíduos florestais são as condições chave para o sucesso deste processo, cujos principais riscos são a escassez de matéria-prima decorrente de distorções logísticas ou o uso indevido de outras matérias-primas, que a ocorrer afetará o equilíbrio das fileiras produtivas associadas à floresta e à madeira.

 

Deste ponto de vista, a definição do modelo de propriedade, gestão e controlo das centrais é fundamental. Acredito que a vontade política e a grande sensibilidade de toda a comunidade para a necessidade imperiosa de quebrar o ciclo de destruição da floresta pela ocorrência sistemática de incêndios de grandes proporções e difícil controlo, motivará os atores para a criação de parcerias capazes de fazer das centrais de produção de energia a partir de resíduos florestais, uma parte da solução para preservar a nossa floresta e o ecossistema em que se insere.

 

Carlos Zorrinho, eurodeputado do PS, membro da Comissão da Indústria, da Investigação e da Energia no Parlamento Europeu, é licenciado em Gestão de Empresas e doutorado em Gestão de Informação pela Universidade de Évora. Foi professor catedrático do Departamento de Gestão da Universidade de Évora, deputado à Assembleia da República pelo PS (1995-2002 e 2004-2014), líder Parlamentar do Partido Socialista na Assembleia da República (2011-2014) e, no Governo, ocupou as funções de Secretário de Estado da Energia e da Inovação (2009 e 2011) e secretário de estado Adjunto da Administração Interna entre 2000 e 2002.

TAGS: incêndios , energia
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