Opinião Carlos Zorrinho (Energia): Indústria automóvel e emissões (ganhar o futuro)

26.09.2018

O Parlamento Europeu tem vindo a debater intensamente a proposta de alteração ao regulamento sobre as emissões dos automóveis. O tema tem grande atualidade. A descida gradual das emissões automóveis no planeta foi interrompida em 2017. Esta realidade evidencia que algo tem que ser feito para tornar possível cumprir o objetivo de neutralidade carbónica em 2050 e sobretudo para melhorar desde já a qualidade de vida dos cidadãos e mitigar os efeitos desastrosos provocados pelo aquecimento global.  

 

A proposta aprovada na Comissão de Ambiente, Saúde e Segurança Alimentar é muito ambiciosa nas metas que estabelece para a União Europeia, propondo metas de redução da emissão de CO2 de 20% até 2025 e 45% até 2030. Propõe ainda incentivar a produção, comercialização e utilização de veículos de reduzidas ou zero emissões, para os quais estabelece metas de 20% para os novos veículos privados e comerciais em 2025 e 40% em 2030.

 

Sem pôr em causa a urgência de medidas e metas ambiciosas, tendo também em conta as conclusões de múltiplos estudos e as conclusões da Comissão de Investigação às Emissões Automóveis criada pelo Parlamento Europeu (Comissão Dieselgate) e que integrei como membro efetivo, é fundamental ter em conta também fórmulas que permitam uma transição justa do modelo de mobilidade, que salvaguarde a competitividade da indústria europeia e salvaguardar os milhões de postos de trabalho que lhe estão associados.

 

Têm sido múltiplas as posições da indústria europeia e também de algumas organizações que representam os trabalhadores alertando para os riscos provocados pela alteração dos processos produtivos. Todas as opiniões devem ser ponderadas e as metas finais devem conjugar ambição e realismo.

 

Não é correto, no entanto contrapor, como alguns pretendem fazer, as metas ambientais à competitividade da indústria e à sua capacidade de manter e criar postos de trabalho sustentáveis. Se a indústria europeia não se adaptar aos novos desafios ambientais pode sobreviver no curto prazo, mas estará condenada mais cedo do que tarde. Em contrapartida, se aproveitar o momento para liderar a transição para os novos modelos industriais e para dar resposta aos novos sistemas de mobilidade, poderá assegurar a sua sobrevivência e competitividade a longo prazo e com um âmbito global acrescido.

 

É nisto que temos que apostar. Inovação e requalificação para ganhar o futuro criando riqueza e emprego. É também para isto que o regulamento das emissões tem que dar um contributo positivo conjugado com uma política ambiciosa de incentivos.

 

A forma como as instituições europeias, os governos nacionais e o sector automóvel conseguirem lidar com o desafio das emissões será um barómetro da nossa capacidade para assumir a liderança tecnológica e económica num sector que os nossos competidores nos disputam arduamente.       

Carlos Zorrinho, eurodeputado do PS, membro da Comissão da Indústria, da Investigação e da Energia no Parlamento Europeu, é licenciado em Gestão de Empresas e doutorado em Gestão de Informação pela Universidade de Évora. Foi professor catedrático do Departamento de Gestão da Universidade de Évora, deputado à Assembleia da República pelo PS (1995-2002 e 2004-2014), líder Parlamentar do Partido Socialista na Assembleia da República (2011-2014) e, no Governo, ocupou as funções de Secretário de Estado da Energia e da Inovação (2009 e 2011) e secretário de estado Adjunto da Administração Interna entre 2000 e 2002.

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