Opinião Carlos Zorrinho: Fumo Cinzento

24.06.2019

O Conselho Europeu realizado dias 20 e 21 de junho em Bruxelas tinha como principais pontos de agenda a definição de um compromisso alargado sobre as candidaturas aos principais cargos institucionais da União Europeia (UE) para o mandato 2019-2024 e a adoção de uma agenda estratégica para a União na qual a neutralidade carbónica em 2050 constitui uma pedra de toque essencial para enquadrar a transição energética e também a modernização económica e social e o lançamento de um novo ciclo de investimento sustentável, gerador de crescimento, emprego e confiança.    

Do Conselho não saiu fumo branco, mas sim fumo cinzento, com uma tonalidade que depende do grau de otimismo ou de pessimismo com que se ler o que está implícito nos compromissos intermédios revelados e na sua potencial evolução.

 

No que respeita aos postos de responsabilidade, as atenções estão agora focadas numa cimeira extraordinária agendada para dia 30 deste mês, dois dias antes do Parlamento Europeu proceder à eleição do seu novo Presidente, marcando o primeiro passo do novo ciclo institucional.

 

Quanto à neutralidade carbónica em 2050, os líderes dos 28 não conseguiram chegar a um acordo unânime num momento em que as projeções para os impactos de curto e médio prazo das alterações climáticas são cada vez mais preocupantes e em que a sociedade civil, em particular os mais jovens, estão cada vez mais mobilizados para um combate determinado e global.

 

Pelo que se conhece do que aconteceu no Conselho, Polónia, Hungria, República Checa e Estónia “congelaram” o compromisso por considerarem não estar claro o modelo de financiamento da transição. É preciso ultrapassar rapidamente o bloqueio.

 

Portugal, que foi um dos primeiros países a adotar um roteiro para a neutralidade carbónica em 2050, esteve mais uma vez neste Conselho do lado certo da história. António Costa propôs e conseguiu incluir a neutralidade carbónica e a parceria com África como duas das prioridades para o novo ciclo da União. De Portugal há fumo branco. Esperemos que contamine toda a UE. É um desafio de sobrevivência.        

 

Carlos Zorrinho, eurodeputado do PS, membro da Comissão da Indústria, da Investigação e da Energia no Parlamento Europeu, é licenciado em Gestão de Empresas e doutorado em Gestão de Informação pela Universidade de Évora. Foi professor catedrático do Departamento de Gestão da Universidade de Évora, deputado à Assembleia da República pelo PS (1995-2002 e 2004-2014), líder Parlamentar do Partido Socialista na Assembleia da República (2011-2014) e, no Governo, ocupou as funções de Secretário de Estado da Energia e da Inovação (2009 e 2011) e secretário de estado Adjunto da Administração Interna entre 2000 e 2002.

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