Opinião de Álvaro Menezes (Saneamento): Onde está a segurança hídrica?

02.11.2016

O Brasil despertou para os efeitos da falta de água em decorrência de um fenômeno climático quando o sistema Cantareira secou em São Paulo. Popularizou-se a crise hídrica como algo novo, remetendo ao natural esquecimento o fenômeno da seca que é realidade secular no Nordeste brasileiro onde se vive agora mais um ciclo de falta de chuvas e de água, com os efeitos de sempre resumidos a mais pobreza e mais exploração desta pobreza para ganho dos poucos de sempre.

 

Outra expressão tornada conhecida e transformada em plano, destacou algo que tem tudo a ver com seca, crise hídrica e falta de água: segurança hídrica. Mas o que seria necessário para ter segurança hídrica no nordeste por exemplo? Investimentos em obras de infraestrutura como o canal adutor do sertão alagoano ou da transposição das águas do Rio São Francisco? Ter leis, resoluções e normas que definam o valor a ser cobrado pelo uso da água com comitês atuando de fato na gestão integrada de bacias hidrográficas? Sem dúvidas ter os investimentos em bons projetos e obras é uma importante ação para que se crie um sistema de gestão de recursos hídricos que esteja pautado em processos operacionais, ambientais, sociais e econômicos de modo que os investimentos não se percam na habitual ineficiência constatada no desperdício de água, na perda de recursos ambientais e financeiros, na omissão dos agentes públicos na definição dos valores a serem cobrados pelo uso da água disponível a partir dos investimentos feitos e por fim, no próprio comportamento da sociedade dependente dessas infraestruturas que varia dos pobres coitadinhos, até os que vendem água de carros-pipa retirada em algumas dessas obras sem pagar um centavo.

 

Olhar de novo para o Nordeste brasileiro é necessário para ver que no Estado de Alagoas foi dado um grande passo, para que o princípio da segurança hídrica seja posto em prática com a colocação em operação de um canal adutor a partir do Rio São Francisco, capaz de fazer com que a realidade possa mudar para muitos sertanejos. Pode até se considerar que este investimento já realizado e com 93 km em uso, poderia ser o ponto de inflexão da miséria para o desenvolvimento. Para tanto, o Estado precisava ser capaz de implantar um modelo de gestão que realizasse o essencial cruzamento do pagamento pelo uso da água com o envolvimento de toda a sociedade no processo de gestão, visando determinar o preço ótimo para obtenção do beneficio máximo dado pelo investimento feito e seu resultado em termos sociais, econômicos e ambientais para a sociedade. Entretanto se vê que nem sempre ter obras significa ter segurança hídrica e o fim da falta de água. O grande desafio é fazer o gerenciamento integrado dos recursos hídricos.

 

Álvaro José Menezes da Costa é engenheiro civil graduado pela UFAL (Universidade Federal do Estado de Alagoas) com especialização em Aproveitamento de Recursos Hídricos (UFAL) e Avaliação e Perícias de Engenharia (UNIP - Universidade Paulista). É segundo secretário nacional da ABES-Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental desde 2012 e sócio da GO Associados Consultoria Multidisciplinar, responsável pelo escritório Norte/Nordeste. É consultor independente na Álvaro Menezes Engenharia & Consultoria. Foi gestor público no setor de saneamento durante 30 anos, ocupando na CASAL-Cia. de Saneamento de Alagoas os cargos de diretor de operações(1989-1991) e comercial (2007-2008), vice-presidente de gestão operacional (2008-2010) e presidente (2011-2014). Na COMPESA-Cia. Pernambucana de Saneamento foi diretor técnico(1999-2006). Foi presidente do Conselho Fiscal da AESBE–Associação das Empresas de Saneamento Básico Estaduais entre 2011 e 2014 e membro de conselhos de administração da CASAL (1987/1989 e 2011/2014) e da COBEL - Cia. Beneficiadora de Lixo de Maceió (1995/1999).

TAGS: Água , segurança hídrica , Brasil , Álvaro Menezes
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