Opinião Helena Leitão de Barros (Angola): Desafios das Infraestruturas face às alterações climáticas

23.01.2019

O sector do saneamento básico e sobretudo o relativo às infraestruturas de abastecimento de água, bem como a implementação de sistemas de gestão das redes de água registaram uma acentuada melhoria em Angola na última década, continuando em franca expansão. Segundo o Plano de Desenvolvimento Nacional 2018-2022 prevê-se um aumento das taxas de cobertura de abastecimento de água nas áreas urbanas e rurais, de 25% e 10%, respectivamente.

 

Considerando a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, uma agenda ambiciosa com vista à erradicação da pobreza e ao desenvolvimento económico, social e ambiental à escala global até 2030, aprovada na Cimeira da Organização das Nações Unidas a 25 de setembro de 2015, todas as acções relativas ao abastecimento de água deverão estar alinhadas com os seus objectivos, estando o objectivo 6 dedicado à Água Potável e Saneamento e que define, entre outras, como uma das metas: Alcançar o acesso universal e equitativo à água potável e segura para todos (meta 6.1).

 

Em Angola, as projecções dos efeitos das alterações climáticas apontam para subida de temperatura com um aumento do número de dias e noites de calor extremo, ampliação das áreas afectadas pela seca e escassez de água, maior frequência e intensidade nos episódios de chuva forte, dando originem a movimentos de terras e inundações, subida do nível médio da água do mar e ainda um aumento da frequência de inundações costeiras.

A garantia de acesso à água potável e segura com o aumento de eventos climáticos extremos conjugados com o acréscimo da população (em Angola prevê-se a duplicação do número de habitantes de 27 milhões em 2016 para 65 milhões em 2050, segundo projecções do Instituto Nacional de Estatística de Angola, constituem um desafio que deve ser equacionado com vista a assegurar a saúde pública da população.

 

Relativamente às infraestruturas de abastecimento de água pode questionar-se de que forma as infraestruturas existentes e a construir em Angola conseguirão estar melhor preparadas para os possíveis impactes resultantes das alterações climáticas, associados ao aumento de população previsto.

Destacam-se entre os potenciais efeitos das alterações climáticas nas infraestruturas de abastecimento de água, o aumento do nível de intrusão salina podendo provocar a corrosão e ruptura da tubagem com perdas de água potável e contaminação da água, o aumento da temperatura do ar que poderá originar uma maior procura de água e sobre utilização das infraestruturas, provocando um maior desgaste e um aumento da necessidades e custos de manutenção, avarias nas bombas de extração de água por excesso de uso e sobreaquecimento, maior evaporação de água em tanques a céu aberto, inundações de equipamentos provocando avarias e a abertura de fissuras no cimento devido a ondas de calor.

 

Sugerem-se, entre outras, as seguintes medidas de adaptação às alterações climáticas no que respeita às infraestruturas de abastecimento de água: utilização de materiais de alta qualidade ou anti-corrosão com uma manutenção apropriada; adopção no dimensionamento de reservatórios de água aumentos significativos de consumo e por último a consideração dos potenciais riscos das alterações climáticas em estudos técnicos, projectos, monitorizações e inspeções relativos às infraestruturas.

 

Os efeitos das alterações climáticas associados à expectável duplicação da população angolana até 2050 torna inadiável que na construção de novas infraestruturas de abastecimento de água e na reabilitação das existentes que seja reconhecida a necessidade de controlar e resistir aos riscos resultantes das alterações climáticas, tornando-as mais resilientes. Só assim se poderá assegurar acesso equitativo à água potável e de uma forma segura para todos.

 

Helena Leitão de Barros, consultora  ambiental e social com larga experiência em Portugal, Angola e Cabo Verde, trabalhou em várias empresas portuguesas, angolanas e multinacionais, em especial nas áreas de avaliação de impactes ambientais e gestão ambiental. Em Angola foi Team Leader  Resident  para a componente Ambiental e Social do Programa Multisectorial de Emergência e Reabilitação, coordenado pelo Ministério do Planeamento e financiado pelo Banco Mundial (2007-2011). Em Cabo Verde trabalhou como Especialista de Campanha Ambiental e Social (Internacional) (2015- 2016)  no Projecto de Desenvolvimento do Abastecimento de Água na Ilha de Santiago, financiado pela Agência de Cooperação Internacional do Japão. É Mestre em Transportes, pelo Instituto Superior Técnico, Universidade Técnica de Lisboa e licenciada em Planeamento Regional e Urbano, pela Universidade de Aveiro. Foi docente do ensino superior em Portugal na Escola Náutica Infante D. Henrique (2001 a 2007) e em Angola na Universidade Independente de Angola (2009-2013).

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