Opinião Helena Leitão de Barros (Angola): Recolha de resíduos sólidos em Luanda. Novo modelo, novos desafios

21.11.2018

O Governo Provincial de Luanda pretende implementar um novo modelo de recolha de resíduos sólidos nesta província, extensível a todas as áreas urbanas e suburbanas.


Em termos gerais, este modelo pretende apostar numa nova forma de deposição e recolha de resíduos que possibilitará a recolha selectiva, com vista à reciclagem e valorização e redução dos resíduos depositados em aterro.


O modelo revolucionará a actual situação de deposição de resíduos, mais concretamente na eliminação de contentores existentes nos arruamentos e na responsabilização dos cidadãos pela manutenção e colocação do recipiente de depósito de resíduos na sua rua, num determinado horário e posteriormente pela recolha deste recipiente quando estiver vazio. Evitar-se-á assim que os contentores permanecem nos arruamentos a qualquer hora do dia e sempre disponível para que o cidadão deposite os seus resíduos, resultando impactes directas negativos no ambiente urbano e saúde pública.


De modo a que o modelo de recolha de resíduos preconizado tenha o sucesso que se pretende, torna-se imperativa uma aposta forte no cidadão, produtor de resíduos, como parceiro e agente de mudança, sendo necessária a sua sensibilização e educação sobre as diversas tipologias de resíduos visando a sua redução, recolha selectiva e a responsabilização sobre a deposição de resíduos.


Assim, entre outros, o planeamento e gestão da recolha de resíduos sólidos na província de Luanda vai exigir novos desafios com um maior enfoque na mudança de comportamentos da população face aos resíduos, na sensibilização sobre os impactes ambientais e de saúde pública da deposição incorrecta dos resíduos, na participação e divulgação dos stakeholders nas soluções propostas, na formação de operadores de resíduos e na utilização de veículos apropriados que permitam o acesso a áreas urbanas não planificadas.


A sensibilização sobre os impactes ambientais e saúde pública têm sido já alvo de inúmeras acções, mas educar a população é uma tarefa que exige atenção continuada e persistente até que se se vejam os resultados pretendidos. A adopção do novo modelo de recolha será mais uma oportunidade para educar/sensibilizar o cidadão, agora numa perspectiva de alteração dos hábitos diários.


A experiência em vários países tem demonstrado que ausência da promoção de mudança de comportamentos, baseada no conhecimento do contexto cultural, tem tido como resultado que novas infraestruturas e equipamentos para a recolha de resíduos não sejam utilizados como seria desejável.


As accões a tomar rumo à mudança de comportamentos baseada nos factores ( contexto socioeconómico, atitudes e comportamentos habituais) permitirão identificar os grupos chave para os quais as campanhas de mudança de comportamento se dirige, identificar os agentes chave, facilitadores de mudança em cada comunidade, que ajudam e proporcionam a transmissão das mensagens, a definição das mensagens e os canais de comunicação mais adequados.


As campanhas de mudança de comportamentos e criação de novos hábitos poderão começar nas escolas e através campanhas porta a porta nas casas dos cidadãos.


A divulgação e participação dos stakeholders durante o todo processo desde a concepção à implementação do novo modelo será também desejável, pois a responsabilização dos cidadãos na deposição de resíduos vai exigir um maior envolvimento e empenho de todos. Como já foi referido o cidadão deve estar ciente das vantagens que trará o novo modelo para a sua qualidade de vida e saúde (percepção da importância de ter um ambiente limpo e sadio na envolvente das suas habitações), quais as suas responsabilidades, mas ainda como pode participar e dar contributos em todo o processo. Deste modo, a divulgação e participação no novo modelo potenciará que este seja apropriado por cada cidadão e não considerado mais um modelo.


Dada a heterogeneidade do espaço urbano em Luanda, o planeamento e gestão da recolha de resíduos de forma a permitir que as áreas urbanas não planeadas, com arruamentos estreitos e de difícil acesso, usufruam também de serviços de recolha, vai implicar uma nova abordagem no planeamento e gestão dos recursos humanos afectos à recolha, podendo coexistir vários níveis recolha com funções e actuações distintas a nível geográfico. Nestas áreas torna-se também conveniente que existam equipamentos de recolha adaptados à situação existente (tamanho e tipologia) e recursos humanos capacitados para a sua utilização.


A necessidade de criar novos hábitos, com novas ideias que envolvam o cidadão e o tornem mais participativa e responsável pelos resíduos que produz e deposita para recolha, com vista à redução dos resíduos e a uma recolha selectiva poderá potenciar o surgimento de emprego e novos negócios na área dos resíduos urbanos.

 

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