Opinião Helena Leitão de Barros (Angola): Redução dos Riscos de Desastres Naturais “Por Todos”

22.04.2019

As notícias de desastres naturais em todo o mundo, com consequências destruidoras e mortíferas têm vindo a aumentar, sendo que existem países com maior risco de desastre natural, como é o caso dos estados insulares.

 

Desde 2011, que é realizado anualmente o relatório World Risk Report pela Universidade Ruhr de Bochum (Alemanha), pela Development Helps Alliance e uma aliança de ONGs alemãs. Este relatório contempla as várias tipologias de riscos naturais como inundações, sismos, tsunamis e furacões. Os riscos naturais são analisados para 172 países, tendo em conta factores como a exposição, a vulnerabilidade, a susceptibilidade e a avaliação a sua capacidade de resposta. Segundo o World Risk Report 2018, Angola está classificada na posição 37, na lista dos países com maior risco de desastre, entre os 172 países e com um indíce de risco mundial de 10.31, classificado como “Alto”.

 

Recentemente, foram divulgados no âmbito do relatório do Quadro de Recuperação Pós-Seca 2018/2022 e da Época das Chuvas, para o período de Agosto de 2018 a 2 de Abril de 2019, os principais desastres naturais que assolaram em Angola; inundações e descargas eléctricas provocadas por raios. O resultado foram mais de duas centenas de mortos, destruição de habitações, escolas, igrejas, centros médicos, pontes, lavras e morte de gado.

 

Estão a ser tomadas medidas para a sensibilização da população relativamente às descargas eléctricas no meio rural, mas relativamente às inundações, as medidas a serem tomadas são de maior complexidade.

 

A redução dos  risco de desastres naturais é um processo de longo prazo que para ser eficaz tem apostar sobretudo na prevenção a nível multisectorial.

 

Em Angola, podem apontar-se, entre outras várias acções a serem desenvolvidas para reduzir o risco de inundação, como sejam: identificar a situação existente das redes de drenagem de águas pluviais; identificar locais onde há registo de inundações recentes; delimitar as áreas de risco a nível municipal; ampliar e melhorar sistemas de aviso prévio; criar comissões de gestão de risco com envolvimento das entidades governamentais locais, autoridades tradicionais e comunidades locais; construir de habitações para o realojamento da população que vive em áreas de risco, (dando atenção particular à drenagem natural do escoamento das águas das chuvas), criar normas para manutenção de valas e sua limpeza e obrigação de cumprimento; construir infraestruturas de saneamento com normas para o seu uso, manutenção e eliminação da defecação ao ar livre.

 

As actividades a realizar com vista à prevenção dos riscos de desastres naturais devem ter a preocupação de envolver as entidades locais, autoridades tradicionais e as comunidades, pois estas não devem ser consideradas quando existe um problema a resolver, ou seja apenas na fase de resposta à calamidade, mas sim como parte a não negligenciar na procura das melhores soluções para a prevenção dos riscos de desastres naturais.

 

Desta forma, sugere-se, como já é prática, em vários países no mundo, que as entidades governamentais locais, autoridades tradicionais e comunidades locais tenham um papel  mais participativo e sejam envolvidas em actividades como: recolha de informação sobre  registos de inundações; a identificação as medições e/ou indicadores usados pelas comunidades para prever inundações e a utilização de novas tecnologias que possam ser utilizadas pelos indivíduos da comunidade para medição de indicadores relacionados com as chuvas e sua informação atempada a outras partes.

 

Assim, será possível implementar a abordagem, em que as práticas de prevenção são instrumentos transformadores a serem utilizados pelos habitantes, “por todos” no sentido de que todos as podem utilizar e “por todos” com vista ao bem de todos e do planeta terra.

 

Helena Leitão de Barros, consultora  ambiental e social com larga experiência em Portugal, Angola e Cabo Verde, trabalhou em várias empresas portuguesas, angolanas e multinacionais, em especial nas áreas de avaliação de impactes ambientais e gestão ambiental. Em Angola foi Team Leader  Resident  para a componente Ambiental e Social do Programa Multisectorial de Emergência e Reabilitação, coordenado pelo Ministério do Planeamento e financiado pelo Banco Mundial (2007-2011). Em Cabo Verde trabalhou como Especialista de Campanha Ambiental e Social (Internacional) (2015- 2016)  no Projecto de Desenvolvimento do Abastecimento de Água na Ilha de Santiago, financiado pela Agência de Cooperação Internacional do Japão. É Mestre em Transportes, pelo Instituto Superior Técnico, Universidade Técnica de Lisboa e licenciada em Planeamento Regional e Urbano, pela Universidade de Aveiro. Foi docente do ensino superior em Portugal na Escola Náutica Infante D. Henrique (2001 a 2007) e em Angola na Universidade Independente de Angola (2009-2013).

 

 

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