Opinião Helena Leitão de Barros (Angola): Valas ou valas de drenagem nas cidades costeiras

29.07.2019

Em Angola muitas obras em valas de drenagem têm sido feitas nas cidades costeiras, mas ainda há um longo caminho a percorrer. Dadas as características geomorfológicas e as condições climáticas, em muitas cidades costeiras as valas de drenagem constituiem orgãos vitais para o equilíbrio entre cidade e a Natureza.

 

As valas de drenagem foram projectadas e construídas para o encaminhamento das águas pluviais, mas por desconhecimento ou falta de consciência não são respeitadas como tal. O papel de uma vala de drenagem na cidade tem de ser recuperado.

 

As valas de drenagem deveriam ser alvo de auditorias técnicas regulares, com vista a identificar os riscos associados à falta de manutenção e à adopção de medidas para a prevenção de cheias e maior resilência às alterações climáticas.

 

De um modo geral, para o cidadão comum, as valas de drenagem são consideradas apenas valas, deste modo, constituem um local para a deposição de resíduos sólidos urbanos e até de descarga direta de águas residuais. A situação torna-se preocupante,  pois na época do cacimbo, os resíduos sólidos vão se acumulando e a água estagnada  pode dar origem a doenças como a leptospirose (transmitida pelo contacto com a urina de rato), a hepatite A e a malária e na época das chuvas os resíduos sólidos servem de barreira ao escoamento das águas para o mar.

 

Nas cidades costeiras os problemas a resolver relativamente à drenagem de águas pluviais, que se realiza nas valas de drenagem  não deve ser dissociado  do saneamento  e gestão de resíduos. Algumas administrações municipais estabelecem parcerias com as associações de moradores, ou arranjam outras formas para a limpeza das valas de drenagem, mas apenas como medida preventiva contra as cheias.

 

Torna-se importante que a gestão de resíduos sólidos nas cidades costeiras integre este problema de deposição dos resíduos sólidos nas valas de drenagem e mecanismos para redução, eliminação ou limpeza, pois normalmente o operador responsável pela recolha dos resíduos sólidos urbanos, não tem estabelecido no âmbito dos seus trabalhos a limpeza das valas de drenagem.

 

Admitindo que a génese do problema está na deposição inadequada dos resíduos, a estratégia deverá focar-se na sensibilização e consciencialização das comunidades de forma a contribuir para uma nova atitude como o respeito pela Natureza, neste caso o ciclo da água e os recursos hidrológicos.

 

Para o cidadão a comprensão desta correlação pode não ser muito clara, já que grande parte das valas de drenagem são infraestruturas construídas pelo Homem, atravessam as cidades, muitas vezes ladeadas por habitações e sem uma aparente ligação à Natureza.

 

Admitindo que para as cidades costeiras, em Angola, o principal problema reside na deposição inadequada dos resíduos sólidos, como já foi referido, paralelamente à sensibilização das comunidades deverão ser dadas alternativas para deposição de resíduos que vivem na proximidade das valas de drenagem, de acordo com o modelo de gestão de resíduos de cada cidade.

 

Seria também interessante que fossem dinamizados ateliers criativos de resíduos, como por exemplo,  com o uso de plásticos e outros materiais que pudessem ser reutilizados e reciclados, em vez de terem o destino de deposição na vala de drenagem, mudando assim a ideia dos resíduos serem considerados “ lixo” para materiais que podem ser aproveitados.

 

A vala voltará a ser vala de drenagem  quando todos reconhecerem o seu papel na cidade e a importância da manutenção do escoamento natural das águas pluviais para o mar. Teremos assim todos uma cidade mais sustentável e resiliente às alterações climáticas.

 

Helena Leitão de Barros, consultora  ambiental e social com larga experiência em Portugal, Angola e Cabo Verde, trabalhou em várias empresas portuguesas, angolanas e multinacionais, em especial nas áreas de avaliação de impactes ambientais e gestão ambiental. Em Angola foi Team Leader  Resident  para a componente Ambiental e Social do Programa Multisectorial de Emergência e Reabilitação, coordenado pelo Ministério do Planeamento e financiado pelo Banco Mundial (2007-2011). Em Cabo Verde trabalhou como Especialista de Campanha Ambiental e Social (Internacional) (2015- 2016)  no Projecto de Desenvolvimento do Abastecimento de Água na Ilha de Santiago, financiado pela Agência de Cooperação Internacional do Japão. É Mestre em Transportes, pelo Instituto Superior Técnico, Universidade Técnica de Lisboa e licenciada em Planeamento Regional e Urbano, pela Universidade de Aveiro. Foi docente do ensino superior em Portugal na Escola Náutica Infante D. Henrique (2001 a 2007) e em Angola na Universidade Independente de Angola (2009-2013).

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